Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea
Enviada em 20/10/2020
O quadro “O Grito” do artista norueguês Edvard Munch é uma das obras que lança o expressionismo ao mundo e, com a antítese de cores quentes e frias, cria uma atmosfera claustrofóbica que chega ao seu clímax no grito de agonia da personagem. Saindo da obra para a realidade, a ansiedade é o sentimento que define sociedade contemporânea, pois vive-se em um sistema econômico em que tanto as incertezas quanto ao futuro são estruturais e que prefere-se medicar os anseios das pessoas ao invés de fazê-las crescer emocionalmente seguras através da educação.
Com a necessidade da quarentena para conter o novo coronavírus, houve uma preocupação acerca da saúde mental de gerações de pessoas que nunca haviam presenciado uma crise dessa proporção. Entretanto, e em especial no Brasil, desde o período escolar já se vive cercado de incertezas, já que não há garantias de conseguir uma vaga no ensino superior e, por conseguinte, a oportunidade de uma vida confortável. Tal situação se agrava na vida adulta na qual vive-se a constante apreensão por não ter a garantia um emprego, e assim não ter o mínimo para uma vida digna, ou até mesmo a garantia das liberdades individuais devido às crises econômica e política que têm levado toda a sociedade a uma medo compulsório do futuro e sem data para acabar, o qual foi amplificado pela atual pandemia da COVID-19.
Segundo o educador Paulo Freire, “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco muda”, ou seja, sem a educação torna-se inviável qualquer mudança na sociedade. Contudo, quando o emocional individual é levado em consideração, é isso que ocorre, pois o sistema educacional preza por uma matriz conteudista e competitiva em que as questões emocionais são menosprezadas ou vistas como fraqueza. Ainda que seja lei que escolas de educação básica tenha psicólogos desde 2019, o Brasil continua como o país com mais pessoas sofrendo de ansiedade, muitas vezes tratada de maneira inadequada, seja pela automedicação de ansiolíticos ou por meio de pseudociêncieas como a constelação familiar e “coaching quântico”. Em suma, não se tem uma educação que construa pessoas que sabem lidar com a própria saúde emocional de maneira salubre e efetiva.
Nesse sentido, é necessário que o Ministério da Educação introduza na Base Nacional Curricular a matéria “Plano de Carreira e Vida”, cuja aula será ministrada por um psicólogo especialista em educação durante um horário na semana em que serão discutidas questões de saúde mental, como ansiedade e suicídio, utilizando do diálogo e técnicas de redução do estresse como a meditação “mindfulness”. A partir desta medida, será possível conter, no Brasil, que as próximas gerações sejam milhões de “Gritos” que berram de tamanha angústia causadas pela sua ansiedade.