Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea
Enviada em 08/12/2020
Em 1978, uma conferência internacional sobre cuidados e atenção primária em saúde aconteceu na República do Cazaquistão. A partir dela, a Declaração de Alma-Ata foi elaborada com prerrogativas acerca de estratégias que devem ser tomadas por todos os países para o atendimento universal e integral em saúde. Contrariamente, tem-se os desafios para combater a ansiedade, problema que assola a sociedade brasileira e assenta-se na visão social equivocada para com o portador desta patologia e a realização de tratamentos e diagnósticos de forma parcial e ineficaz.
A priori, deve-se abordar que os transtornos psicológicos são vistos de maneira distorcida. Haja vista que, por muitos séculos eles eram atribuídos à influência sobrenatural maligna, como foi o caso da Idade Média, na qual, por domínio do pensamento cristão católico da época, qualquer sinal de distúrbio mental era visto como possessão demoníaca. Desse modo, como resquício do passado histórico ocidental, tem-se a ideia de que a ansiedade não é uma doença e, com isso, não deve ser tratada como tal. Logo, as pessoas negam acompanhamento especializado por concepção individual ou por receio do julgamento de terceiros, o que se confirma pelo o discurso de Pierre Bourdieu de que o indivíduo é analisado pelo seu corpo social a partir de simbologias firmadas historicamente.
Outrossim, é importante explanar a maneira como o paciente com ansiedade é atendido e o modo como vive. Em suma, o indivíduo deveria ser interpretado como um ser biopsicossocial, do modo que a Organização Mundial da Saúde classifica. No entanto, os diagnósticos feitos e os tratamentos escolhidos focam na doença em si, abandonando o fato de que o portador sofre influência social, cultural, financeira e psicológica além da biológica. Concomitantemente, o Brasil torna-se o campeão em casos de transtorno de ansiedade - quase um décimo da população, segundo dados da OMS - visto que sua medicina é voltada para as enfermidades, e não para o enfermo, e que é um país com inúmeros condicionantes sociais negativos, como pobreza, desigualdade social e falta de segurança.
Portanto, medidas precisam ser tomadas pra a resolução dessa problemática. O governo deve investir em estratégias que incentivem o entendimento sobre a ansiedade por meio de campanhas midiáticas com informações da doença para que a ideia mística acerca da patologia seja superada. Ademais, o Ministério da Educação deve melhorar a grade curricular das graduações dos profissionais de saúde a partir da criação de disciplinas sobre a humanização do cuidado para que ele ocorra de maneira igualitária, universal, equânime e integral de modo que o paciente seja diagnosticado e tratado como um todo. Apenas assim, o que foi determinado e direcionado pala declaração de Alma-Ata ocorrerá no Brasil.