Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea
Enviada em 18/12/2020
Em sua obra “Ensaio sobre a Cegueira, o escritor José Saramago ressalta a importância de ter olhos quando todos os perderam. Sob essa ótica, nota-se uma espécie de cegueira social, intrincada na sociedade, que impede os indivíduos de enxergarem os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea. Desse modo, o enfrentamento desse transtorno no Brasil esbarra, obrigatoriamente, na banalização da patologia e no uso inadequado e exagerado das redes sociais, o que demanda discussões acerca de estratégias para combatê-la.
Nesse contexto, a historiadora Hannah Arendt concebeu o conceito de “banalidade do mal” para definir o sutil ato de conviver com o mal e praticá-lo sem perceber, banalizando-o. Analogamente, a relativização dos sintomas da ansiedade potencializa a banalização desse mal. Nesse viés, de modo nefasto, uma parcela da população negligencia a necessidade do tratamento desse transtorno e coloca o Brasil no topo do ranking dos países mais ansiosos do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Outrossim, o desconhecimento sobre a ansiedade e seus sintomas impede o seu controle e permite o agravamento da doença, o qual pode culminar em uma depressão. Assim, é indubitável a importância da disseminação de informações acerca do caráter patológico da ansiedade e dos seus possíveis tratamentos, a fim de mitigar a sua estigmatização social.
Ademais, segundo o médico Roberto Debski, o uso excessivo da internet e redes sociais pode gerar ansiedade. Sob esse prisma, o acesso inadequado a essas redes é capaz de fomentar a competitividade, haja vista o excesso de exposição e comparação, o qual leva a uma baixa autoestima. Além disso, a alta velocidade no fluxo de informações, conteúdos e produtos expostos na internet intensificam o imediatismo e reducionismo, característicos das gerações y e z. A partir dessa premissa, é evidente que as pessoas têm maior probabilidade de desenvolver transtornos de ansiedade ao utilizar tais tecnologias durante horas por dia, o que é muito comum entre jovens brasileiros. Posto isso, observa-se uma sociedade com um número cada vez maior de pessoas que sofrem de ansiedade, sem perspectiva de melhoria desse quadro enquanto perdurar o uso inadequado das redes sociais.
Infere-se, portanto, que a banalização dos sintomas e o uso inapropriado das redes sociais são obstáculos para o combate à ansiedade no Brasil. Logo, é basilar que o Conselho Federal de Psicologia promova programas de apoio e disseminação de informações, por meio de infográficos e vídeos, por exemplo, a respeito dos transtornos de ansiedade e das suas infelizes consequências na vida dos indivíduos, além de orientações acerca da utilização saudável da internet, com o fito de minimizar os males desse transtorno e superar os desafios que impedem o seu combate.