Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea
Enviada em 19/12/2020
Em sua obra “Ensaio sobre a Cegueira", o escritor José Saramago ressalta a importância de ter olhos quando todos os perderam. Sob essa ótica, nota-se uma espécie de cegueira social, intrincada na sociedade contemporânea, que a impede de enxergar os sintomas da ansiedade. Desse modo, o enfrentamento desse transtorno no Brasil esbarra, obrigatoriamente, em desafios como a banalização da patologia e o uso inadequado e exagerado das redes sociais, o que demanda discussões acerca de estratégias para combatê-lo.
Nesse contexto, a historiadora Hannah Arendt concebeu o conceito de “banalidade do mal” para definir o sutil ato de conviver com o mal e praticá-lo sem perceber, banalizando-o. Analogamente, a relativização dos sintomas da ansiedade potencializa a banalização desse mal. Nesse viés, de modo nefasto, muitos estigmatizam as vítimas desse transtorno e negligenciam a necessidade do tratamento, o que coloca o Brasil no topo do ranking dos países mais ansiosos do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Outrossim, a desinformação sobre a ansiedade e os seus sintomas impede o seu controle e permite o agravamento da doença, o qual pode culminar em uma depressão. Assim, é indubitável a trivialização do caráter patológico da ansiedade e dos seus possíveis tratamentos como um empecilho para combatê-la.
Ademais, de acordo com o médico Roberto Debski, o uso exacerbado da internet e das redes sociais pode gerar ansiedade. Sob esse prisma, o acesso inadequado a essas redes é capaz de fomentar a competitividade, haja vista o excesso de exposição e comparação, o qual leva a uma baixa autoestima. Além disso, a grande velocidade no fluxo de informações, conteúdos e produtos expostos na internet intensificam o imediatismo e reducionismo, característicos das gerações Y e Z. Diante dessa perspectiva tecnológica, na busca por uma adequação aos inúmeros padrões da sociedade, muitos sujeitos têm o seu estado psicológico comprometido e se tornam ansiosos. Posto isso, é inegável a influência das redes sociais como um obstáculo para refrear os paradigmas da ansiedade.
Infere-se, portanto, que a banalização dos sintomas e o uso inapropriado das redes sociais são obstáculos para o combate à ansiedade no Brasil. Logo, é basilar que o Conselho Federal de Psicologia promova programas de apoio e disseminação de informações, por meio de palestras sobre os transtornos de ansiedade e suas infelizes consequências, com a divulgação de infográficos e vídeos, por exemplo, além de orientações acerca da utilização saudável da internet, com o fito de minimizar os males dessa patologia e superar os desafios que impedem o seu combate.