Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil

Enviada em 02/05/2020

Carlos Chagas, médico e pesquisador brasileiro, foi o único a descobrir e a descrever o ciclo completo de uma patologia: a Doença de Chagas. Sua importância é inegável e os frutos de sua pesquisa são colhidos até hoje, visto que essa é uma enfermidade comum no país. Sob essa perspectiva, nos dias atuais seria difícil surgir um nome de destaque como o dele, tendo em vista a constante fuga de cérebros do Brasil para outros países. Tal aspecto origina-se da negligência estatal em relação à pesquisa e de um fator cultural que tem uma imagem deturpada dos cientistas.

A princípio, é importante ressaltar que um dos grandes desafios acerca da emigração de cientistas advém do Estado. Nesse sentido, cabe citar a PEC 241, que estipulou um teto de gastos públicos em 2016 com validade de 20 anos. Como resultado, não haverá novos investimentos para a área da ciência, o que torna as Universidades sucateadas, deixa os pesquisadores desamparados por não terem insumos para realizar experimentos e mantém os laboratórios abandonados por não contarem com manutenção suficiente. Por conseguinte, as linhas de pesquisa ficam sem recursos financeiros para serem levadas adiante e os pesquisadores ficam sem ter outra escolha senão sair do país. Por essa razão, a postura estatal diante disso precisa ser mudada para evitar a vazão de cientistas.

Somado a isso, convém frisar que existe um fator cultural que também não favorece a ciência. Seguindo essa premissa, o estereótipo do cientista maluco que faz experimentos inúteis sem qualquer retorno econômico ao país, como o Doutor Emmet Brown, no filme “De volta para o futuro”, é a imagem que muitas pessoas têm dos cientistas. Dessa forma, não incentivam jovens a seguirem esse caminho, o que contribui para tal desvalorização. No entanto, a pesquisa é fundamental para a produção de tecnologia e para a superação do subdesenvolvimento, sendo, por isso, um caminho eficiente para o crescimento econômico. Acerca disso, o filósofo Kant disse que o homem precisa se libertar de sua menoridade e se concentrar na busca pelo conhecimento. Depreende-se, então, que o apoio à ciência é um grande aliado na conquista da maioridade kantiana e deve ser priorizado em um país.

Fica claro, portanto, que existem desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil. Por conta disso, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação deve criar um projeto que atue em duas frentes: metodológica e escolar. Isso pode ser feito por meio de repasses financeiros às Universidades para compra de insumos e manutenção dos laboratórios e também mediante o incentivo escolar feito através de visitas guiadas aos tecnopólos brasileiros. Tudo isso com o objetivo de oferecer a estrutura necessária aos cientistas e de despertar nos jovens o interesse nessa área, quebrando estereótipos ultrapassados. Assim, será possível o surgimento de outros ícones como Chagas na história brasileira.