Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil

Enviada em 07/06/2020

A Guerra Fria foi marcada por barreiras que ultrapassaram o âmbito ideológico, tal qual o Muro de Berlim que impediu a consolidação do apoio de cientistas soviéticos aos Estados Unidos da América, colaborando assim para o desenvolvimento bélico do bloco Oriental. Apesar do lapso histórico e temporal,pode-se perceber que indivíduos altamente qualificados impulsionam a realidade social que os permeia, bem como os pesquisadores na época do Mundo Bipolar. Sob esse viés, é fundamental analisar os desafios culturais e políticos no combate à fuga de cérebros no Brasil.

A princípio, é importante compreender que falta de credibilidade no país estabelecida como habitus impulsiona a fuga de cérebros. Ao tomar como base o pensamento da psicanalista Maria Rita Kehl, a partir do seu conceito de “Bouvarismo brasileiro”, que consiste na comparação aquém da verdadeira realidade social, nota-se que o a cultura nacional ainda é permeada pela falsa ideia de inferioridade e de comparações irreflexivas perante países com dinâmicas econômicas e sociais díspares em relação ao Brasil. Diante disso, é perceptível que a falta de confiança e de esperança nacional geram uma perspectiva unilateral relativa ao êxito e à qualidade de vida em profissionais altamente qualificados, uma vez que esses  acreditam que só serão plenamente felizes em países estrangeiros .

Além disso, é primordial entender as dimensões políticas da falta de investimento científico no Brasil, flagelo esse que impulsiona a fuga de cérebros. De acordo com a “Teoria do Subdesenvolvimento” do economista Celso Furtado, pode-se perceber que a estrutura produtiva do Brasil é determinada por fatores históricos pautados na evolução do capitalismo dos países desenvolvidos, sobretudo dos Estados europeus,dinâmica essa que consolidou o Brasil como exportador de commodities  e como dependente da tecnologia externa para obtenção de produtos avançados. A partir desse prisma social, é notório que a continuidade dessa estratégia do subdesenvolvimento colabora para a falta de investimentos significativos em pesquisas científicas e tecnológicas, o que infelizmente é uma realidade no Brasil,intensificando a fuga de cérebros brasileiros e retardando a autonomia nacional.

Logo, pode- se inferir que desafios culturais e políticos permeiam a problemática da fuga de cérebros na Brasil. Diante disso, urge que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações articule parcerias entre a iniciativa privada e os centros de pesquisa universitários, por meio de acordos de investimento com capital empresarial nas pesquisas nacionais, nos laboratórios públicos e nas bolsas científicas em troca de isenção fiscal. Isso deve ocorrer com a finalidade de desconstruir a cultura de descredibilidade e de dependência econômica nacional, beneficiando a permanência de profissionais qualificados no Brasil,porém não mais por muros físicos como na Guerra Fria.