Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil
Enviada em 12/06/2020
No universo fictício do filme Robôs, um jovem robô sai de sua terra natal em busca de terreno para suas invenções junto ao seu ídolo, o Grande Soldador. Porém, o inventor descobre, ao conhecer sua antiga inspiração, que o espaço para inovações perdeu terreno no cenário. Apesar de ficção, a realidade da obra se assemelha aos problemas com que a ciência sofre no Brasil hodierno, que incentivam uma fuga de cérebros do território nacional. Nesse contexto, desafios como mudar a visão nacional em relação ao investimento em ciência, bem como tornar a nação favorável a pesquisas e ao desenvolvimento científico são fundamentais para manter os jovens cientistas no país.
De início, é notório que um dos desafios a serem superados consiste em modificar o conceito cultural que se tem sobre Ciência no país. Sob a ótica do estudioso francês Émile Durkheim, o qual afirma a existência de um fato social - um padrão externo e superior ao indivíduo que orienta suas ações individuais e regra as coletivas -, a negligência nacional acomoda culturalmente um comportamento de importação tecnológica. Isso significa dizer que a população tende a pensar na ciência como um fenômeno vindo do exterior, e o país acaba se tornando mero receptor das tendências globais. Contudo, nota-se que tal questão é superável, uma vez que, na década de 70, a iniciativa Proálcool colocou o Brasil na liderança em meio a um momento de crise mundial relativa ao petróleo graças a uma descoberta científica nacional.
Outrossim, é um relevante desafio tornar o Brasil propício ao desenvolvimento de pesquisas, para torná-lo atraente aos jovens cientistas nativos. Tal questão se configura porque, sob a perspectiva do estudioso Michel Foucault, para quem há múltiplas fontes de incidência de poder que condicionam o comportamento da sociedade, é preciso criar um cenário no qual a ciência e a pesquisa sejam constituintes de um comportamento cultural nacional. Esse condicionamento será fundamental na construção de um país cientificamente independente e protagonista diante do cenário global. Como o biólogo Átila Iamarino afirma em sua entrevista para o Roda Viva: na crise do novo Coronavírus, o Brasil poderia estar liderando os estudos de impactos humanos e de descoberta de uma vacina.
Percebe-se, portanto, que a mudança do contexto científico nacional é fundamental para superar a fuga de cérebros do país. Para tanto, é preciso que o Ministério da Educação transforme as condições do florescimento da ciência no país, por meio de investimentos nessa área, com o aumento significativo nos repasses de verbas para pesquisas nas universidades federais, grandes fontes das pesquisas nacionais. Isso visará tornar o país um protagonista na produção científica, com esta como parte de sua cultura. Assim, superar-se-á essa periclitante situação, análoga a dos Robôs.