Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil

Enviada em 24/06/2020

É possível que Aristóteles seja o mais relevante e antigo caso de fuga de cérebros na humanidade. Em plena Antiguidade, o filósofo trocou Estagira, onde nasceu, pelo centro intelectual de seu tempo, a Acrópole de Atenas. Entretanto, a exemplo do fundador do Liceu, os pesquisadores brasileiros também estão deixando o seu local de origem por falta de condições favoráveis à continuidade dos seus trabalhos científicos. Nessa linha, há dois desafios que precisam ser enfrentados para resolver essa evasão comprometedora, são eles: a persistente redução de investimentos na ciência brasileira e o descaso com os estudos e materiais que já existem.

Em primeiro lugar, ressaltam-se os equivocados cortes feitos pelo Poder Executivo às pesquisas nacionais. Embora essa política de redução de gastos seja importante para o destino da nação — como bem explicam os economistas —, ela não deve de nenhuma forma impossibilitar a condução dos estudos acadêmicos, posto que eles são igualmente imprescindíveis ao desenvolvimento. Ademais, os cortes também implicam em um desperdício dos recursos públicos investidos na alta formação destes profissionais. Por isso, deve-se evitar essa situação de poucos financiamentos, pois ela fomenta o desinteresse e a frustração dos pesquisadores e agrava o problema em questão.

Além disso, há ainda o descaso do poder público com as próprias instalações físicas de universidades e museus em todo território nacional. Em setembro de 2018, por exemplo, o Museu Nacional ardeu em chamas após anos de contínua negligência com a manutenção do prédio. Assim, relíquias inestimáveis do acervo e grande parte dos estudos lá desenvolvidos foram para sempre perdidos em meio ao fogo. Contudo, apesar da magnitude da tragédia, esse não foi um caso isolado na história recente, haja vista que o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, e o Museu da UFMG, em 2020, sofreram igualmente com graves incêndios. Desse modo, é impossível assegurar a satisfação de profissionais que não veem seu trabalho reconhecido e tampouco preservado no país.

Logo, para que se resolva essa problemática é preciso que o Estado tome uma medida efetiva e duradoura. Assim sendo, deve o Congresso Nacional, por meio de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), destinar uma parte fixa do orçamento da União para arcar com os gastos anuais necessários à atividade científica no Brasil. Desta maneira, é possível sustentar a continuidade das pesquisas em andamento, colher os seus frutos, propiciar a criação de novas e, por fim, garantir a permanência, em definitivo, dos pesquisadores no país.