Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil
Enviada em 27/07/2020
Consoante com estudo da “JBJ Partners”, 93% dos brasileiros, que emigraram para os Estados Unidos, de 2014 a 2018, possuíam curso superior ou pós-graduação. Esse escoamento de cérebros tem raízes indubitáveis num projeto político de sucateamento institucional da ciência brasileira. Asseguram esse projeto os cortes de verbas - destinadas à educação e à pesquisa - e a hostilidade sofrida pelos pesquisadores.
Logo, é evidente que a redução de recursos para o desenvolvimento científico está umbilicalmente relacionada com a fuga de cérebros brasileiros. Explicita-se, dessa maneira, de forma contundente, que, na ausência de investimentos e incentivos, a mão de obra especializada se realoca à busca de melhores condições materiais. Para ilustrar isso, basta lembrar que o Governo Federal anunciou que deverá cortar, até o final do ano, até oitenta mil bolsas de mestrado, segundo nota do MEC.
Ademais, não deve-se esquecer que a hostilidade vivida pelos pesquisadores influencia diretamente na sua decisão por sair do país. Conforme levantamento feito em 2019, pela antropóloga Rosana Pinheiro Machado, 91,5% dos acadêmicos, que optaram por carreiras internacionais, sentiam-se desvalorizados e hostilizados pela ideologia autoritária do governo Bolsonaro - principal protagonista do projeto de sucateamento.
Portanto, ambos os fatores que influem na fuga de cérebros - hostilidade e austeridade econômica - são elementos de um projeto político muito bem articulado. Isso se dá pois, se atribuiu, ao longo da história, à ciência o papel se opor às arbitrariedades do poder político e, evidentemente, criticar medidas obscurantistas por ele tomadas. Consequentemente, de tempos em tempos, surgem governos de cunho autocrático que se prestam ao desfavor de perseguir intelectuais e pregar a sua extinção.
Todavia, ainda que a coluna vertebral da fuga de cérebros seja de ordem política, sua sustentação se dá pela via econômica - vide corte de recursos. Assim sendo, faz-se fundamental que se tomem medidas dessa natureza. Por isso, deve o Ministério da Educação, através das suas fundações e autarquias condizentes (CAPES, CNPQ, universidades etc.), propor, via legislativa, projeto de lei de taxação anual de grandes fortunas - acima de 22 milhões de reais. Esse fundo levantado seria destinado ao pagamento das 84 mil bolsas de pós-graduação, atualmente bancadas pelo MEC. Calcula-se que, taxando 0,5% ao ano essas fortunas, todas essas bolsas possam ser pagas por, pelo menos, 25 anos. Ainda sobraria para o investimento em aquisição de novos equipamentos para as universidades e, consequentemente, melhor capacitação técnica geral. Dessa forma, forneceria-se melhores condições materiais para que os pesquisadores não as buscassem em outros países.