Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil
Enviada em 02/12/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à falta de combate à fuga de cérebros. Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir a fuga de cérebros. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais perante o processo de elaboração das leis, posto que o ordenamento jurídico em vigor não tem garantido a oportunidade de inserção no mercado de trabalho aos pesquisadores, favorecendo, diretamente, o êxodo definitivo de cientistas e a violação do direito ao trabalho desses. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado a falta de combate à fuga de cérebros, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos diante da ausência de assistência estatal, posto que falta investimento financeiro para possibilitar o progresso da ciência, como, por exemplo, bolsas de incentivo a programas de pós-graduação, o que influencia a emigração de pesquisadores, prejudicando o desenvolvimento econômico do país. Constata-se, dessa forma, que a naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que a fuga de cérebros deve ser combatida. Para isso, é necessário que o Poder Legislativo elabore uma legislação mais rígida, o que pode ser feito por meio da concessão de isenção fiscal a indústrias que contratem pesquisadores, a fim de garantir a aprimoração técnica das empresas devido ao potencial de inovações cientificas e a consolidação dos direitos constitucionais. Ainda, é fundamental que organizações não governamentais, mediante atuação de veículos midiáticos, promovam campanhas que estimulem a mobilização coletiva para que se exija do Estado um maior direcionamento de verbas as instituições públicas de ensino superior, visando expandir o fornecimento de bolsas de incentivo a pesquisa, com o objetivo de impedir o êxodo de cientistas e danos à economia nacional. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra do José Saramago.