Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil

Enviada em 12/09/2021

No episódio “Todo mundo sangra” do seriado estadunidense “Big Mouth”, é retratado a primeira menstruação da jovem “Jessi” em um passeio escolar, nesse contexto, ela se vê em apuros por necessitar da ajuda de um colega para comprar itens de higiene íntima, já que nem o banheiro público que ela se escondeu possuía papel higiênico. Sob essa conjuntura, relaciona-se a obra cinematográfica com a realidade de muitas garotas brasileiras, visto que em ambos cenários a pobreza menstrual financeira e informacional passa a interferir no cotidiano das mulheres. Nesse sentido, observa-se não só o tabu e falta de informação sobre o período menstrual, como também, a ineficácia estatal referente a disponibilização de produtos íntimos para mulheres de baixa renda.

Em primeira análise, entende-se que o problema da desinformação sobre a menstruação é alarmante, pois interfere diretamente tanto na saúde da mulher, quanto no modo como ela lida com a situação. Sob essa perspectiva, a título de ilustração, a marca “Sempre Livre” - da Johnson e Johnson- realizou uma pesquisa identificando que cerca de 54% das mulheres entre 14 e 24 anos sabiam nada ou tinham poucas informações sobre a menarca, e que ainda 39% pedem absorvente emprestado como se fosse um segredo. Nessa lógica, é notável que falar sobre o período menstrual é um tabu para muitas mulheres, fato que proporciona um terreno fértil para insegurança e sofrimento solitário, haja vista que muitas jovens -desamparadas- não sabem lidar com naturalidade o processo de modificação corporal.

Em segundo lugar, a respeito da pobreza financeira menstrual, percebe-se o desamparo do estado em relação a essas mulheres que acabam usando métodos caseiros -como panos, algodão, miolo de pão- até faltam seus compromissos, exemplo a escola, por não possuírem condições de arcar com itens de higiene básicos. Sob esse panorama, filósofo Jean-Jacques Rousseau aduz sobre o conceito de “Contrato Social’ o qual identifica o Estado como detentor da submissão da vontade geral, em troca da responsabilidade de oferecer a normalidade civil. Nesse raciocínio, entretanto, verifica-se o descumprimento por parte do Estado em proporcionar uma boa qualidade de vida e saúde para cidadãs brasileiras, uma vez que itens como absorventes ou coletores menstruais não são caracterizados como necessidade básica gratuita, como é o caso do preservativo.

Portanto, em relação aos desafios da pobreza menstrual, é dever do Poder Legislativo, em conjunto com o Ministério da Saúde, elaborar e aplicar a obrigatoriedade de distribuição de artigos de higiene do período menstrual, postos de saúde e escolas; por intermédio do englobamento dessa ação como direito das mulheres na legislação brasileira. Ademais, é preciso maior abertura sobre o assunto no período escolar sendo importante oferecimento de palestras e rodas de conversa-com agentes de saúde e professores- sobre a menstruação e educação sexual, afim de proporcionar um ambiente acolhedor e sem discriminações.