Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 01/09/2021
“Absorvendo o Tabu” é um documentário vencedor do Óscar 2019 que aborda o estigma em torno da menstruação, a desinformação relativa ao tema e até mesmo o abandono escolar frequente após a menarca. Apesar de estar inserido em um contexto internacional, o problema apresentado no curta-metragem não está restrito à Índia, visto que o tabu que envolve o ciclo menstrual é muito presente no Brasil e corrobora a falta de acesso a itens básicos de higiene. À vista disso, danos à saúde e a evasão escolar são efeitos diretos da pobreza menstrual no país.
Nesse aspecto, dados preocupantes provenientes de uma pesquisa realizada pela Sempre Livre revelam que 54% das mulheres entre 14 e 24 anos não possuíam informações sobre o sangramento antes da menarca. Isso se deve ao persistente preconceito relacionado a esse processo natural e fisiológico, que geralmente é pouco discutido em escolas e, sobretudo, em ambiente familiar, o que leva inúmeras meninas a acreditarem que é algo vergonhoso e que deve ser escondido. Além disso, o tabu que envolve a menstruação impede que o assunto seja mais discutido inclusive no parlamento, fato que contribui com a manutenção da pobreza menstrual, visto que inúmeras mulheres não têm condições financeiras de comprar absorventes, e ainda assim não possuem nenhum auxílio do Estado, justamente por parecer um assunto de pouca importância devido às poucas discussões.
Dessa forma, a negligência governamental em relação ao quadro leva inúmeras mulheres em situação de carência financeira a usar papel higiênico, miolo de pão, pedaços de jornal e roupas velhas como forma de conter o sangramento. Nesse sentido, conforme a ginecologista Mirian Goldenberg, esses improvisos podem provocar lesões nos órgãos reprodutores, infecções no trato urinário e mais uma diversidade de inflamações. Ademais, segundo o relatório “Livre para Menstruar”, elaborado pelo movimento Girl Up, uma a cada quatro adolescentes não possui absorventes para uso durante o ciclo menstrual e acabam perdendo muitos dias de aula, e, consequentemente, conteúdos importantes. Portanto, com o intuito de promover maior conhecimento e combater os estigmas e a pobreza relacionados à menstruação, é necessário que o Ministério da Saúde promova ações educacionais urgentemente. Isso deve ser feito por meio de palestras e grupos de discussão, especialmente em ambiente escolar, que abordem a menstruação como algo saudável e informem sobre os cuidados necessários durante o período. Para mais, absorventes e coletores menstruais devem ser distribuídos gratuitamente para mulheres em condições vulneráveis, por meio do direcionamento de uma parcela dos altos impostos cobrados da população diariamente, para que a pobreza menstrual possa finalmente ser combatida no Brasil.