Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 27/08/2021
De acordo com a Organização das Nações Unidas, o acesso à higiene menstrual é considerado um direito humano e deve ser tratado como uma questão de saúde pública. Contudo, a falta de informação sobre o tema somada à condição de vulnerabilidade social a qual muitas mulheres estão submetidas são obstáculos para a vivência digna da menstruação. Logo, é urgente que políticas públicas que combatam à pobreza menstrual sejam priorizadas, tanto para a garantia de apoio psicológico, quanto para o efetivo acesso ao bens necessários à saúde da mulher.
Sob esse viés, primeiramente, é importante destacar que o termo pobreza menstrual refere-se também à carência de informação sobre o assunto. Nesse sentido, ainda que durante grande parte da vida de uma mulher em período fértil haja sangramento pelo órgão genital todos os meses, o tema ainda consiste em um tabu para a sociedade patriarcal, fato que dificulta o diálogo e estigmatiza o corpo feminino. Para Sigmund Freud, psiquiatra austríaco e autor do livro “Totem e tabu”, essas proibições silentes cerceiam as liberdades individuais e coletivas, além de, frequentemente, impossibilitar o conhecimento acerca da realidade. Visto isso, em razão de uma cultura conservadora, muitas meninas convivem sozinhas com as inseguranças e os desafios de um fenômeno biológico mensal, do qual, comumente, sentem vergonha.
Adicionalmente, é notório o papel da desigualdade social como fator que potencializa a miséria material vivenciada durante o ciclo da menstruação. Isso ocorre porque muitas mulheres em estado de vulnerabilidade social não têm recursos financeiros suficientes para comprar absorventes ou demais itens específicos para a proteção da saúde íntima nesse período. Além disso, dentro desse contexto de escassez, a falta de acesso à água limpa, para a adequada limpeza da genitália, expõe o corpo feminino à infecções, justo em momento em que ele já está mais suscetível à problemas de saúde, pois é uma época em que a imunidade tende a diminuir. Tal negação do direito humano à higiene menstrual ratifica a conclusão de Simone de Beauvoir no livro “O segundo sexo”, uma vez que ela considera que o contexto social faz da menstruação uma maldição para as mulheres.
Portanto, urge que o Estado atue para mitigar a experiência de precariedade menstrual vivida pelas mulheres brasileiras. Cabe ao Ministério da educação, por meio da inserção na grade curricular, promover o debate sobre saúde feminina, a fim de ajudar as adolescentes a lidar com as dúvidas sobre a menstruação, especialmente com a participação de psicólogas e ginecologistas. Cabe, ainda, à União garantir a distribuição gratuita e universal de absorventes e coletores menstruais em locais públicos, assim como garantir saneamento básico para todos.