Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 22/09/2021
O documentário “Absorvendo o tabu”, da Netflix, mostra a pobreza menstrual em uma comunidade da Índia, onde o tabu gerado sobre o tema resulta na retirada das meninas da escola, após a menarca, e na falta de higiene, no período menstrual. De forma semelhante a Índia, no Brasil, diversas meninas ainda não possuem acesso a itens básicos de higiene e sofrem com o desconhecimento acerca do tema. É necessário, portanto, entender as causas do tema ser um tabu e quais são as mulheres que mais sofrem a pobreza menstrual.
Nesse viés, vale pontuar que o machismo estruturante da nossa sociedade impossibilitou por muitos anos que o corpo feminino fosse estudado, criando uma grande estigmatização sobre a menstruação, presente até hoje em grande parte do globo. Essa falta de discussão acerca sobre o ser feminino foi obra do estudo da filósofa e mãe do feminismo, Simone de Beauvoir, que em sua mais célebre frase resume sua tese: “não se nasce mulher, torna-se”. Afirmação que mostra que em um mundo dominado pelos homens é necessário se compreender como mulher e entender que o “segundo sexo” não tem um papel definido e pode ocupar todos os lugares sociais.
Porém, em um país em que quatro milhões de meninas não têm acesso a itens de cuidado menstruais, segundo um levantamento da Unicef – fundo de emergência da ONU – tornar-se mulher é uma tarefa cada vez mais difícil. Moradoras de rua, presidiárias, meninas negras e periféricas são as que mais sofrem com a falta de higiene menstrual e a falta de organização governamental faz com que essas mulheres usem jornais, pedaços de pano e até folhas de árvores para conter a menstruação. Olhando para essa situação, a sociedade civil promove algumas campanhas, como a realizada pela advogada e jornalista Gabriela Prioli que, em conjunto com a empresa Pantys, realizou uma campanha para doar calcinhas absorventes para presidiárias, ações como essa ajudam, mas não estancam o problema.
Portanto, para que o impasse seja resolvido faz-se necessário sancionar a lei que já está em andamento no Congresso Federal, que sugere que absorventes sejam distribuídos gratuitamente em escolas públicas e postos de saúde, fazendo com que todas as meninas tenham acesso aos itens de higiene. Além disso, o Ministério da Saúde, em conjunto com o Ministério da Criança, da Mulher e dos Direitos Humanos, deve realizar uma campanha que fale abertamente sobre a menstruação, por meio das redes sociais, possibilitando que meninas perguntem para profissionais especializados acerca do tema. Dessa forma, a menstruação deixará de ser um tabu e as meninas poderão ir para a escola se sentindo seguras e confortáveis no seu próprio corpo.