Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 21/09/2021
No documentário “Absorvendo o Tabu”, é retratado o cotidiano de uma comunidade rural na Índia em que as mulheres sofrem preconceito por conta do período menstrual e, muitas vezes, não têm acesso a produtos de higiene. Nesse sentido, a trama explora o drama vivenciado por elas durante tal período. Analogamente ao documentário, muitas brasileiras, em razão da falha atuação estatal e da falta de informação acerca da menstruação, enfrentam situação semelhante. Logo, são necessárias ações do Estado e do corpo social no combate a esse grave problema: a pobreza menstrual.
Em primeiro plano, é imperioso salientar que a inércia estatal - por intermédio do descumprimento constitucional- diante dessa adversidade é materializada na ausência de políticas públicas de distribuição e desenvolvimento de itens básicos de higiene, como absorventes, e infraestrutura adequada, como sanemaneto básico de qualidade, inserindo inúmeras cidadãs brasileiras na situação de vulnerabilidade social. Nesse contexto, o sociólogo Zygmunt Bauman institui o conceito de “Instituição Zumbi”, segundo o qual o Estado mantém- a todo custo- a sua forma, mas perde sua função social. Assim, a hodierna atuação estatal configura-se como uma “Instituição Zumbi”, na medida em que deveria garantir a segurança e o conforto de milhares de mulheres durante o período menstrual, entretanto se mostra incapaz de fazê-lo.
Ademais, a falta de informações acerca da menstruação propicia a reprodução de pensamentos ultrapassados- no que diz respeito ao ciclo biológico feminino- , como o estigma social de doença, nojo ou castigo feminino, os quais afetam bruscamente o estado emocional e psicológico de muitas mulheres. Sob esse viés, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie afirma que a rotulação de pessoas através de certa característica física é responsável pela criação de histórias únicas que não representam a realidade. Ora, se a sociedade reproduz percepções preconceituosas e esteriotipadas no tocante à menstruação, entende-se assim o porquê da perpetuação da pobreza menstrual . Desse modo, faz-se mister a reformulação dessa postura social de forma urgente.
Portanto, combater os desafios que intensificam a pobreza menstrual no Brasil, urge que o Governo Federal, responsável pela administração dos interesses nacionais, invista, por meio do redirecionamento de verbas, na criação de projetos de fornecimento de itens de higiene feminina, como absorventes, para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Além disso, compete às instituições formadoras de opinião, como as escolas e as famílias, o desenvolvimento de ações de esclarecimento acerca da menstruação, com o escopo de erradicar estigmas sociais ultrapassados. Somente assim, poder-se-á contribuir para que o drama narrado em “Absorvendo o Tabu”, seja, em breve, ficção.