Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil

Enviada em 18/09/2021

Como todo processo evolutivo, a menstruação tem como função o sucesso reprodutivo. Ela ocorre devido à preparação uterina para o recebimento do óvulo fecundado e se baseia no aumento da espessura do endométrio. Esse tecido irrigado em sangue funciona como uma barreira protetiva, que impede a expurgação do gameta; no entanto, quando a fecundação não ocorre, tem-se a descamação dele, com a eliminação do tecido sanguíneo. Tal conhecimento acerca do período menstrual foi decifrado, entretanto, apenas no século XX; antes disso, o que se tinha era a demonização desse processo. Nesse cenário, tem-se, por consequência, a pobreza menstrual. Isso se dá, em parte, devido à falta de discussões sobre o assunto e à negligência governamental.

Em primeiro plano, evidencia-se a ignorância generalizada no que tange à menstruação no Brasil. Segundo a escritora Simone de Beauvoir, há uma superstição acerca do período menstrual, a qual determina uma noção de impureza em tudo o que revolve o processo. A autora discorre na obra “O Segundo Sexo” que, desde as sociedades primitivas, o sangue uterino tornou-se tabu, de modo a intensificar a vulnerabilidade, principalmente, de mulheres. Hodiernamente, como herança histórica, percebe-se a falta de uma abordagem direta sobre o assunto, o que impede discussões sobre as implicações sociais da menstruação. Dessarte, tem-se o agravamento da pobreza menstrual.

Outrossim, é imperativo pontuar a falta de ações púbicas no que concerne ao bem-estar das pessoas que menstruam. Em um país com alta desigualdade social, é possível observar que itens básicos de saúde pública são tratados como artigos de luxo. Desse modo, o uso de absorventes e de água encanada não é democratizado. De acordo com o jornalista Dimenstein, o brasileiro, como cidadão de papel, tem os direitos garantidos, majoritariamente, apenas na teoria. Assim, embora o acesso à saúde seja obrigação constitucional, indivíduos utilizando jornais e até miolos de pão para conter o sangue menstrual são uma realidade. Conseguintemente, essas pessoas tendem a contrair infecções.

Diante do exposto, urge que o Governo Federal, por intermédio de um amplo debate com as Prefeituras, crie um plano de ação focado na distribuição democrática de absorventes e de itens de higiene íntima. Esse projeto deverá visar ao abastecimento das escolas e dos postos de saúde, além da ampla divulgação, nas salas de aula e nas mídias sociais, sobre a importância do cuidado com os órgãos reprodutores; ademais, haveria uma campanha de distribuição de água potável e de saneamento básico, por meio de cobranças às empresas responsáveis. Tal ação tem a finalidade de minimizar o tabu e de universalizar o acesso à saúde de qualidade. Assim, combater-se-á a pobreza menstrual no Brasil.