Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil

Enviada em 24/09/2021

Ao se averiguar o contexto social hodierno, depreende-se que, embora tenha sido intitulado como “país do futuro” pelo filósofo austríaco Stefan Zweig, o Brasil tem seu desenvolvimento obstado pela permanência da pobreza menstrual em seu território. Funestamente, essa situação decorre, em grande parte, de duas consideráveis problemáticas: o tabu que cerceia o tema da menstruação e o desigual acesso a produtos de higiene pelas brasileiras.

Em primeira instância, é fulcral considerar que o silenciamento dos assuntos que envolvem a menstruação, principalmente nas escolas e no ambiente familiar, apresenta-se como um grande fator perpetuador desse nefasto cenário, uma vez que acarreta negligenciamento da situação. A gênese desse quadro encontra-se no modo errôneo com que boa parte dos cidadãos lidam com esse assunto, uma vez que, na atual sociedade patriacal, o período menstrual é considerado sujo e vergonhoso por grande parte da população. Sob essa ótica, consoante aos dados de uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), uma em cada dez meninas deixam de frequentar a escola quando estão menstruadas, o que explicita o receio das mulheres de serem vítimas de situações constrangedoras e aumenta os índices de evasão escolar. Dessa forma, torna-se evidente que a transformação desse infausto panaroma se mostra como um grande desafio a ser superado pela nação verde-amarela.

Outrossim, ainda que se trate de um direito assegurado pela Constituição Federal de 1988, o acesso equitativo à saúde figura, muitas vezes, somente no plano teórico, conforme disserta o escritor Gilberto Dimenstein, em seu livro “Cidadão de Papel”. Isso ocorre porque, em razão da displicência governamental para com a situação e da consequente falta de assistência dos órgão públicos no período menstrual, as mulheres são expostas a condições de vulnerabilidade social e sanitária. À vista disso, é evidente que a falta de acesso aos itens de higiene mentrual por parte das brasileiras transgride um bem constitucional e, consequentemente, ameaça a plena cidadania no país.

Diante do exposto, urge, portanto, a premência da criação de mecanismos que visem a mitigar a pobreza menstrual no Brasil. Posto isso, cabe ao Ministério da Saúde - órgão incubido de garantir o direito dos cidadãos à saúde pública no país -, por meio de verbas governamentais e de uma parceria com o MInistério da Educação, a distribuição mensal de absorventes e coletores mentruais nas escolas brasileiras, a fim de mitigar a vulnerabilidade a qual grande parte das mulheres estão sujeitas. Feito isso, será possível transformar o Brasil em um modelo mundial no combate às dificuldades da fase menstrual e, desse modo, criar meios propícios para que a teoria de Zweig se torne realidade.