Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil

Enviada em 14/10/2021

Segundo o artigo “Atitudes relacionadas à menstruação e ao sangue menstrual na Inglaterra do Período Elisabetano”, de Bethan Hindson, a vergonha atual sobre o corpo feminino se deu pelo fato da Igreja considerar ele impuro, sendo, portanto, proibido o seu estudo. Assim, como produto do tabu clerical, a miséria informacional, proveniente da regra social do silêncio sobre as questões “das mulheres”, tal como a dificuldade de um acesso igualitário a meios que facilitem a jornada menstrual, como absorventes, saneamento básico e remédios, devido ao descaso governamental, tornaram-se o cerne dos desafios para se combater a pobreza menstrual no Brasil.

Nesse contexto, Helen O’Connell, primeira urologista australiana, defende que se deve quebrar a barreira da vergonha para se acabar com desconhecimento sobre os assuntos relacionados ao mundo feminino, sendo um exemplo disso o seu ato de romper com a negligência acadêmica direcionada aos órgãos feminilizantes em 1998, sinal do vigente patriarcado social, ao publicar um estudo completo sobre o clitóris. Assim, é de certo que se os meios de educação — mídia, escola, família— abordassem sobre a menstruação, ela não seria vista como um carma na vida das meninas, fazendo existir dados como os do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em que 60% das jovens já deixaram de ir à escola ou a outro lugar que gostassem por estarem simplesmente expelindo sangue pelo órgão sexual.

Ademais, segundo a organização 25% das brasileiras não têm acesso à absorventes, estatística que comprova ainda mais a indiferença do governo para com a sua população feminina. De modo, a tornar vigente no país o cenário retratado no documentário da Netflix, “Absorvendo o Tabu”, em que na Índia rural, onde o estigma da menstruação persiste, as mulheres têm que produzir os próprios absorventes para combater a falta de apoio do Estado e da religião no que concerne os seus períodos biológicos. Dessarte, evidenciando o atraso cultural do Brasil, que se mantém estático na esfera do conservadorismo, sendo um indício disso o fato do presidente Bolsonaro ter vetado, ao vivo, a  gratuidade de absorventes, como mostrou o Jornal da Rede TVT.

Destarte, objetivando o fim do tabu sobre a menstruação, o Ministério da Saúde deve, por meio de um programa estatal voltado à saúde feminina, administrar palestras nas unidades básicas de saúde, local em que ele também deve distribuir um kit de auxilio menstrual, que detenha, sobretudo, produtos de higiene, como sabonete e absorvente, remédios e água potável, se necessário, acabando, dessa forma, não só com a desinformação sobre o assunto, mas também com a negligência estatal, e tonando, além de tudo isso, normal o que antes era um pudor religioso.