Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil

Enviada em 13/10/2021

Na obra literária “Metamorfose”, escrita por Franz Kafka, é denunciado o processo de apagamento e marginalização de grupos sociais, os quais, em sua obra, são reduzidos à meras baratas. Essa alegoria artística transpõe as páginas e concretiza-se no contexto brasileiro, haja vista que não há grandes debates e ações acerca da pobreza menstrual no território. Isso decorre não só da negligência estatal, mas também da invisibilidade midiática sofrida por essa parcela da população. Dessa forma, é imperiosa a análise da adversidade, com o fito de mitigá-la.

Nesse viés, vale retomar o aspecto supracitado quanto à omissão governamental como fator preponderante à problemática. Nesse contexto, segundo a Constituição Federal vigente, o Estado deve garantir a dignidade da pessoa humana -conceito baseado nas condições existenciais mínimas para uma vida saudável- a todo cidadão. Entretanto, rompe-se com tal lógica constitucional ao verificar que parte da população feminina não possui acesso a itens básicos de cuidados com a higiene. Ocorre, portanto, um descaso estatal frente ao quadro, uma vez que não há o desenvolvimento de políticas públicas bem estruturadas, as quais visem à distribuição de absorventes e à disponibilização de banheiros com sabonete, por exemplo. Por fim, conclui-se que o Governo falha na certificação da dignidade humana à toda a sociedade, rompendo, assim, o contrato social.

Outrossim, é relevante salientar a invisibilidade midiática sofrida por esse grupo social como causa da manutenção da vicissitude. Posto isso, conforme o sociólogo Zygmunt Bauman, na era tecnológica, a invisibilidade é equivalente à morte. Sob essa ótica, em função de comportamentos individualistas, os principais meios de comunicação não divulgam os desafios enfrentados pelos indivíduos marginalizados que mestruam -como falta de informações e de itens básicos de higiene -, visto que essa temática não gera tanta relevância lucrativa. Logo, ratifica-se o exposto por Bauman, pois, ao não ser denunciado esse nefasto cenário, os demais cidadãos terminam por não percebê-lo ou questioná-lo, fadando-o ao recôndito e consequente “morte”.

Por conseguinte, é notório que o debate acerca da pobreza menstrual no Brasil é fundamental para a construção de um meio social menos desigual. Assim sendo, cabe ao Governo Federal, juntamente às esferas municipais de poder, prover condições mínimas para o respeito à dignidade desse grupo social, por meio da distribuição gratuita de itens de higiene e de postos de lavagem, além da promoção de propagandas informativas quanto ao período menstrual, a fim de que haja uma sociedade mais informada e, assim, esses indivíduos possam usufruir de seu direito social. Dessa maneira, espera-se que o hostil quadro denunciado Franz Kafka não mais represente uma realidade brasileira.