Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 13/10/2021
A Organização das Nações Unidas (ONU) integra a higiene menstrual aos direitos humanos e ao âmbito da saúde pública. Todavia, a existência da pobreza menstrual no Brasil demonstra que a fruição desse direito não ocorre de forma democrática. Esse fato é resultado das desigualdades socioeconômicas predominantes em sociedade e tem como consequência a exclusão da participação de pessoas que menstruam do cotidiano. Assim, faz-se necessário a aplicação de políticas para atenuar o cenário.
Em primeiro plano, cabe salientar que a desigualdade socioeconômica que guia a sociedade brasileira contemporânea é fator que instiga a continuidade da pobreza menstrual. Conseguinte o autor Ariano Suassuna, o Brasil é dominado por uma segregação secular, que é responsável por privilegiar alguns e tornar outros despossuídos. Sob esse viés, pode-se inferir que o predomínio das desigualdades, sobretudo econômicas, tornam o acesso a recursos básicos, como a higiene no período da menstruação, um privilégio, visto que a falta da renda necessária para a compra dos produtos adequados direciona as pessoas que menstruam a buscar alternativas, por vezes, inviáveis e prejudiciais à saúde íntima. Por isso, a persistência da pobreza menstrual é reflexo do contraste socioeconômico.
Consecutivamente, a manutenção desse cenário exclui os indivíduos que menstruam do convívio e das atividades cotidianas, favorecendo, assim, a estigmatização da menstruação. No documentário ganhador do Oscar em 2018, “Absorvendo o Tabu”, é retratada uma comunidade indiana na qual as meninas estavam abandonando a escola durante o período menstrual por, além de não possuírem dinheiro para comprar absorventes, se sentirem constrangidas devido ao sangramento. De maneira análoga à realidade brasileira, o prosseguimento da pobreza menstrual é responsável por suprimir a atuação de quem menstrua em sociedade, estigmatizando, desse modo, um processo fisiológico natural.
Em suma, a continuidade da pobreza menstrual no Brasil, impulsionada pelos fatores socioeconômicos, demonstra que o direito à higiene menstrual não é democraticamente usufruído e, portanto, exige medidas para mudar essa conjuntura. Para isso, é fundamental a atuação do Governo Federal na democratização do acesso a produtos de higiene usados durante a menstruação por meio da distribuição gratuita de absorventes, bem como oferecimento de remédios para auxiliar nas cólicas e dores no corpo, típicas do período, a fim de propiciar conforto e saúde a quem necessita, concretizando o direito à higiene garantido pela ONU. Ademais, é essencial o papel das mídias de comunicação na conscientização coletiva acerca da naturalização da menstruação visando conter a estigmatização.