Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 18/10/2021
Em um episódio da série “Sex Education”, da plataforma digital Netflix, as personagens Maeve e Aimee defendem a distribuição gratuita de absorventes para as mulheres. No entanto, fora da realidade cinematográfica, quando vislumbrada a atmosfera da pobreza menstrual no Brasil, o quadro mostra-se extremamente preocupante, já que apresenta entraves que impedem o combate da problemática. Nessa senda, dois fatores são cruciais para serem revistos: o construto de uma ótica social limitada e a displicência do governo, no que se refere ao saneamento básico.
Em primeira análise, cabe destacar o impacto do preconceito na persistência do imbróglio. Sob esse viés, o documentário “Absorvendo o Tabu”, ganhador do Oscar 2019, aborda a perspectiva estigmatizada, no que tange a menstruação, de homens e mulheres em uma área rural na Índia. Nesse sentido, assim como retratado no curta-metragem, a construção cultural de um juízo de valor negativo em relação ao ciclo biológico do organismo feminino possibilita a invisibilidade dos problemas que englobam a saúde íntima desse grupo. Desse modo, nota-se, como consequência, que a higiene pessoal é colocada em segundo plano, o que contribui para a vergonhosa lacuna formada pelo tabu em torno da menstruação, além de catalisar a pobreza desse panorama hodierno.
Ademais, é imperativo pontuar o precário sistema de saneamento básico como um dos fatores que validam o estorvo na comunidade tupiniquim. Com isso, é lícito mencionar a célebre teoria da “Instituição Zumbi”, em que o sociólogo Zygmunt Bauman critica a ineficiência do aparato administrativo em exercer as funções destinadas a ele. Assim, essa face materializa-se na conjuntura verde-amarela, haja vista que as atuais medidas públicas organizadas por parte da instância máxima de poder para diminuir os malefícios advindos da falta de acesso às condições mínimas de saúde e higiene são, em grande maioria, ineficazes. Dessa maneira, a exígua dignidade menstrual releva a faceta obscura da sociedade e agrava os efeitos colaterais desse fenômeno.
Verifica-se, portanto, a necessidade de ações capazes de reverter esse triste cenário. Para tanto, urge que o Ministério da Educação estabeleça, como obrigatoriedade, aulas de educação sexual nas escolas brasileiras, por meio da institucionalização do assunto como conteúdo previsto bela Base Nacional Comum Curricular, com o fito de promover o debate acerca da pobreza menstrual e desconstruir as amarras culturais do preconceito. Outrossim, cabe ao Governo Federal promover, por intermédio da cessão de capital público aos órgãos competentes, investimentos financeiros no sistema de saneamento básico em todo país, a fim de fornecer melhorias na qualidade de vida da parcela populacional que menstrua. Destarte, será possível concretizar a proposta retratada em Sex Education.