Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil

Enviada em 28/10/2021

No livro “A Hora da Estrela”, Clarice Lispector retrata a história de Macabéa: jovem nordestina que vive nas acomodações de um cortiço com escasso amparo sanitário, visto que, não raro, precisa improvisar itens de higiene básicos. Fora da literatura, a realidade da moça reverbera a falta de seguridade social no Brasil, por exemplo, no que tange à pobreza menstrual , a qual é caracterizada pela ausência de suporte durante a menstruação. Assim, deve-se elencar que esse fator decorre de raízes históricas, bem como da desigualdade socioeconômica, elementos que situam muitas brasileiras em condições análogas às discorridas na obra da escritora.

Diante desse contexto, historicamente a mulher recebeu tratamento indiferente no corpo social. Isso porque, verifica-se que, desde a Grécia Antiga, o ciclo menstrual foi marcado tanto por uma ótica sagrada, quanto por uma perspectiva de bruxaria. Tal circunstância buscava delinear um perfil para ser silenciado, com vistas a ignorar a sua condição, o que se repercute até o hodierno pela comunidade civil. Como exemplo, destaca-se, no Brasil, a dificuldade em se aprovar leis no congresso que disponibilizem proteção nesse período, sobretudo a meninas e a mulheres carentes. Dessa forma, perpetua-se um estigma embasado na Antiguidade que, sob raízes de misoginia, restringem o período de menstruação a um tabu que não só deve ser encoberto mas, por vezes, motivo de vergonha.

Outrossim, a miséria menstrual enfrentada pelo sexo feminino tem origem na ausência de meios econômicos para suprir necessidades primárias nesse período. Nesse sentido, o geógrafo Milton Santos argumentou na obra “Cidadania Mutilada” que o básico não é oferecido a uma parcela da população, que se vê aos pedaços, marcada por uma sensação de vida indigna. Sob esse prisma, ressalta -se a ausência de saneamento básico, de conteúdos informativos e, mesmo de absorventes, visto que, esse grupo impossibilitado de realizar suas atividades cotidianas normalmente por falta de recursos, tende a associar essa fase mensal a uma patologia.  Desse modo, as pessoas que estão à margem da sociedade carecem de itens que implicam na manutenção de suas condições de saúde, bem como convívio social.       Portanto, o Ministério da Saúde deve implementar um projeto de democratização da saúde menstrual, por meio da distribuição de absorventes e coletores menstruais, além de sabonetes íntimos, tanto nas escolas, quanto nos postos de saúde, para tornar tais itens acessíveis à população, sobretudo a de menor renda. Além disso, a Mídia, por meio de vídeos explicativos na televisão e na internet,, deve divulgar conteúdos com a presença de médicos e de mulheres, com o fito de esclarecer mitos e reduzir os estigmas acerca da menstruação no Brasil. Com isso, a curto prazo, os desafios vivenciados por Macabéa ficarão restritos à literatura verde-amarela.