Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 27/10/2021
O romance filosófico “Utopia” - criado pelo escritor inglês Thomas Morus - retrata uma civilização perfeita e idealizada, na qual a engrenagem social é altamente segura e desprovida de conflitos e problemas. Tal obra fictícia mostra se distante da realidade contemporânea no tocante à pobreza menstrual vivenciada por mulheres, homens trans e pessoas não binárias. Esse panorama lamentável ocorre não só em razão da desigualdade socioeconômica vivenciada por pessoas que menstruam em condição de desvantagem econômica, mas também pelo estigma ligado à menstruação. Desse modo, torna-se necessário a análise dessa conjuntura para reverter esse quadro.
Nessa linha de raciocínio, é importante ressaltar que a carência de investimentos em políticas públicas que atendam às demandas dessas pessoas deriva da ineficiência do Poder Público no que concerne à criação de mecanismos, os quais coíbam tais recorrências. Na visão do filósofo contratualista John Locke, o Estado foi criado através de um pacto social com o objetivo de assegurar os direitos fundamentais dos indivíduos. Entretanto, é notório o rompimento desse contrato no cenário hodierno brasileiro, visto que, cerca de, 1 em 4 mulheres não têm acesso a absorventes, esse dado é agravado quando se correlaciona às esferas econômicas e de raça. Destarte, fica evidente a ineficiência da máquina administrativa na resolução dessa situação.
Além disso, a perpetuação do estigma no que tange o debate sobre a menstruação e anatomia feminina apresenta-se como outro desafio para a problemática. A série “Sex education” aborda essas temáticas ao longo da trama, debatendo temas sobre a biologia do corpo humano e seus ciclos biológicos, como a menstruação. Tal realidade não é materializada no Brasil, onde o tema não é tão bem abordado dentro e fora das salas de aula, consequentemente, o tema é visto como um tabu. Logo, é notório que o preconceito ligado à menstruação corrobora para a perpetuação do problema, o que retarda o combate à pobreza menstrual.
Infere-se, portanto, a mitigação dos entraves em prol da erradicação da pobreza menstrual. Assim, cabe ao congresso nacional, mediante ao argumento de percentual de investimentos, o qual será proporcionado pela Lei de Diretrizes Orçamentárias, LDO, ampliar os gastos com políticas públicas de distribuição de itens de higiene pessoal para as pessoas que menstruam, além da construção de mais banheiros femininos em espaços públicos. Além disso, é importante ampliar o debate sobre o tema em ambientes escolares por meio de palestras ministradas por profissionais ginecologistas, com o objetivo de desestigmatizar o tema e levar conforto e dignidade para as mulheres e outros durante seus ciclos. Dessa forma, poder-se-á concretizar a utopia de Morus em nossa sociedade.