Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 30/10/2021
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o conceito de saúde é definido por “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doenças ou enfermidades”. Ao analisar a sociedade brasileira, vê-se que a efetivação desse conceito não é vista na prática, uma vez que o país é palco de enorme pobreza menstrual, isto é, mulheres pobres que não possuem acesso a artifícios para lidar com sua menstruação, utilizando recursos que comprometem sua saúde, como jornais e panos velhos. Com isso, faz-se imprescindível ir às raízes do problema, que se encontram em esferas econômicas e sociais.
Nesse sentido, é possível perceber que a mercantilização de produtos essenciais é um dos fatores agravantes do problema. Isso porque, recursos como água, alimentação de qualidade, saúde e outros considerados essenciais à vida humana, como abordado no Artigo 6º da Constituição Federal, são capitalizados, visando o lucro, impedindo que as classes pobres tenham pleno acesso a eles. Desse modo, além de impedir a implantação digna do que está inferido na lei, o acesso a absorventes menstruais torna-se inviável à parcela marginalizada, de modo a intensificar o abismo social no país, o qual já se configura como oitavo mais desigual do mundo, segundo o IBGE.
Além disso, é notável a lacuna nas discussões e propagações públicas acerca da menstruação no país. Isso acontece, pois a questão menstrual na sociedade brasileira é tratada como tabu, impedindo a discussão aberta necessária para resolver o problema. Sob essa ótica, é válido considerar as ideias do sociólogo José Murilo de Carvalho, o qual, em sua obra “Cidadania no Brasil”, discute o fato de que a única maneira de um povo reivindicar seus direitos inferidos na lei é através do processo de conscientização do que é seu por direito. Desse modo, a inexistência de tal discussão higiênica no âmbito social gera efeitos na consciência populacional, deixando a entender que absorventes não são algo necessário para as pessoas que precisam desse serviço, e, como resultado, sua reivindicação é quase nula.
Portanto, percebe-se que a pobreza menstrual brasileira é fruto de questões sociais e econômicas, impedindo a distribuição justa de tais recursos. Assim, surge a necessidade do Governo Federal promover a distribuição de absorventes menstruais gratuitamente. Tal ação ocorrerá por meio de projetos nacionais, os quais irão implantar tal medida em cada um dos 26 estados e Distrito Federal, além de promover campanhas de conscientização pública acerca da importância da discussão sobre a menstruação na sociedade, a fim de garantir o acesso a esses artifícios. Desse modo, será possível tornar a definição emitida pela OMS definitiva em todo o território brasileiro.