Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 04/11/2021
O poema “Vou-me embora para Pasárgada”, de autoria de Manuel Bandeira - famoso poeta modernista - exprime o desejo de fuga da realidade do literato. Nesse sentido, muitos brasileiros dividem o anseio de escape da vida real com célebre poeta, uma vez que a pobreza menstrual no Brasil é um imbróglio presente no cotidiano da sociedade. Sob essa perspectiva, a manutenção desse infortúnio no corpo social brasileiro, deve-se ao tabu existente sobre a menstruação, que resiste e, assim, limita a democratização à informação, bem como a carência a itens de higiene durante o ciclo menstrual.
Consoante à Teoria Habitus, elaborada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, a sociedade possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos pelos indivíduos. Logo, tal tese exemplifica, acertadamente, o ciclo de ações que promove a continuidade da coibição sobre a necessidade de promover a meninas e adolescentes, informações sobre seu ciclo menstrual, tal como esclarecer dúvidas e expor os cuidados indispensáveis com a higiene durante esse período. Por outras palavras, a privação de informações a jovens é resultado da demasia de pudor imposto pela sociedade a eventos que são naturais do corpo feminino. Outrossim, esse tabu travestido de bom senso social, impede que educadores ofereçam, com a ajuda de profissionais da saúde, aulas de educação sexual, pois, a falácia da dispensabilidade quanto a fala da pobreza menstrual, infelizmente, se sobressai.
Ademais, tal como citou a filósofa grega neoplatônica Hipátia de Alexandria, “compreender as coisas que nos rodeiam é a melhor preparação para compreender o que há mais além”. Isto é, a normalização da inadequação na promoção de informações sobre o período menstrual, dificultam o combate a pobreza menstrual em território brasileiro, tornando-a uma convenção costumeira, que para a maioria não promove grande danos. Contudo, essa trivialização fomenta a dificuldade de percepção da sociedade de que popularizar itens de higiene menstrual é questão de saúde pública, visto que aquelas que não possuem condições de adquirir absorventes, por exemplo, acabam por usar panos sujos e até miolo de pão, contagiando-se, desse modo, com doenças ginecológicas, como retrata a escritora Nana Queiroz, no livro Presos que menstruam.
Isto posto, depreeende-se a precisão de que o Ministério da Educação inclua na grade de matérias obrigatórias escolares, aulas de educação sexual, com profissionais qualificados, que apresentem pautas de acordo com a idade de cada turma. Além disso, é fundamental que as emissoras cedam espaço para que mulheres, como Nana Queiroz, apresentem mais da realidade de mulheres que sofrem com a pobreza menstrual, gerando assim, adesão da sociedade nesse dilema de saúde pública, que poderá resultar na aprovação de políticas públicas voltadas para essa questão.