Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil

Enviada em 15/11/2021

Lima Barreto, em seu livro “Os Bruzundangas”,  criticou vários aspectos do Brasil na primeira metade do século XX, mormente no que tangia às mazelas sociais. No entanto, apesar do tempo decorrido desde a publicação da obra, ainda hoje se faz necessário apontar e discutir os inúmeros problemas que subsistem no país, destacando-se, por certo, a problemática do combate à pobreza menstrual no Brasil, a qual ocorre, infelizmente, em razão da negligência governamental e da sociedade.

Em primeira instância, nota-se que a Constituição Cidadã de 1988 assegura a todo brasileiro o direito à saúde. Todavia, esse direito não é efetivado. Isso é explicitado na medida em que, segundo dados divulgados pela CNN, cerca de 4 milhões de meninas vivem na escassez de produtos de higiene básica, incluindo absorventes e sabonetes. Isso ocorre em razão de um alto grau de pobreza, no qual diversas vezes é preciso negligenciar os cuidados com a saúde para que se possa sobreviver e não morrer de fome. Dessa forma, cabe lembrar as ideias do filósofo John Locke, o qual dizia que o indivíduo, por ter sua relação com o Estado baseada na confiança mútua, pode, sempre que essa confiança for rompida - Como no desrespeito supracitado à Carta Magna -, rebelar-se e reivindicar seus direitos. Dessarte, é dever do cidadão exigir o cumprimento da lei maior.

Outrossim, a própria sociedade é responsável pela manutenção desse problema. Tristemente, diversos indivíduos banalizam a luta pelo apoio governamental, alegando fraqueza ou até mesmo, um assunto ao qual o Estado não deve se responsabilizar. Entretanto, a maior parte dos indivíduos dessa esfera do corpo social não leva em consideração dificuldades econômicas, muito menos a questão involuntária: mulheres não tem poder de escolha sobre a menstruação. Contudo, o Estado fornece preservativos, apoiando a causa da luxúria e negligenciando a saúde. Todavia, segundo o pedagogo Célestin Freinnet, é possível superar qualquer pensamento errôneo estabelecido na sociedade, bastando, para isso, o desejo de mudança dos agentes sociais. Portanto, uma mudança nos valores é essencial para mitigar as dificuldades no combate ao acesso da dignidade menstrual brasileira.

Diante dos fatos citados, é fulcral que o Estado, por meio de uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação com organizações não governamentais, crie um projeto a ser desenvolvido nas escolas e postos de saúde, o qual promova a distribuição gratuita de itens de higiene básica, tais como absorventes e sabonetes, com o intuito de melhorar a saúde da mulher, no mesmo passo que combate à pobreza. Se assim for feito, o Brasil estará um passo mais próximo de deixar de ser o país que Lima Barreto criticava, para tornar-se uma nação desenvolvida de fato.