Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 23/07/2022
Negligenciar necessidades menstruais fere direitos femininos conquistados, diver-sas vezes, a custa de tragédias, como ocorreu no incêndio em Nova Iorque onde 130 mulheres morreram queimadas lutando por igualdade. Esse contexto de into-lerância, vivenciado pelas operárias e pelas mulheres reféns da pobreza menstrual, é fortalecido por instrumentos de dominação simbólica voltados à misoginia e é intensificado pela educação fragmentada, que atrofia saberes cidadãos.
Nessa perspectiva, é importante compreender como o perverso símbolo machista estigmatiza as urgências fisiológicas comuns ao sexo feminino. Conforme denuncia o sociólogo Pierre Bourdieu, o poder simbólico é uma autoridade invisível que dis-põe de instrumentos de dominação reafirmadores e reprodutores de paradigmas. Nesse sentido, a suposta hegemonia de indivíduos que não possuem útero se tor-nou símbolo para a concessão de direitos cidadãos, estabelecendo uma sociedade
indiferente com a necessidade de combate a pobreza menstrual no Brasil. Tal sim-
bolismo social é tão marcante que, mesmo com lutas para direitos femininos, mais de 4 milhões de meninas têm higiene menstrual escassa, segundo a CNN Brasil.
Além dessa influência simbólica, vale ressaltar o papel da escola na fragmentação do conhecimento voltado à promoção da igualdade de direitos e na consequente perpetuação de pobreza menstrual no país. De acordo com Edgar Morin, a educa-ção fraciona saberes de maneira a reduzir a complexidade e diversidade do conhe-cimento humano, priorizando áreas de estudo e atrofiando saberes cidadãos. Nes-se sentido, indivíduos reféns dessa fissura de saberes não compreendem que as urgências fisiológicas femininas podem requerer direitos específicos para essa po-pulação. Essa fragmentação na educação está tão estabelecida que a menstruação ainda é um tabu e um motivo para bullying entre muitos jovens estudantes.
Portanto, a fim de garantir o acesso a higiene menstrual no Brasil, é necessário que o sistema educacional, que possui o poder de formar cidadãos ativos nas transfor-mações sociais, promova a desconstrução dos símbolos de misoginia e indiferença à pobreza menstrual. Tal ação se efetivará por meio da implementação de uma educação integral, que discuta a complexidade e diversidade humana, construindo uma formação cidadã que será promotora de demandas pela higiene menstrual.