Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 30/07/2022
“Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada” narra a vida de Carolina Maria de Jesus: mulher negra, pobre e periférica que cata papel para sobreviver. A obra literária relata as condições sub-humanas em que Carolina vivia, sem dinheiro para comprar comida e, muito menos, itens para seu próprio período menstrual. Entretanto, infelizmente, a questão da pobreza menstrual ainda é realidade para 25% das brasileiras, segundo dados da Fundação das Nações Unidas. Assim, urge o debate acerca das principais causas desse impasse: a negligência governamental e a inferiorização da mulher na sociedade brasileira.
Em primeiro lugar, é válido destacar a omissão do Estado neste cenário. Em 2021, o Governo Federal vetou o Projeto de Lei que garantiria a distribuição gratuita de absorventes para as mulheres. Dessa forma, fica evidente a escassez de investimentos fiscais no setor feminino, tendo por consequência um alto índice de mulheres em situação de indignidade menstrual que, invisibilizadas pelo Estado e sem condições financeiras para comprar absorventes, buscam por outras alternativas, tais como: jornais, meias e até mesmo miolo de pão para conter seu fluxo sanguíneo, acarretando infecções ou doenças mais graves, legitimando a pobreza menstrual no país como questão de saúde pública.
Outrossim, a objetificação da mulher numa sociedade estruturalmente machista também é um agravante desta problemática. Segundo a filósofa e ativista feminista Simone de Beauvoir, a mulher é vista na humanidade como algo relativo ao homem, não sendo um ser autônomo. Por conseguinte, as mulheres têm os processos biológicos e naturais do seu corpo tidos como um “tabu”, principalmente seu ciclo menstrual, e suas necessidades são ignoradas. Isso explica o fato de, no Brasil, o absorvente ser considerado um artigo de luxo e ser tributado como tal, tornando-o ainda mais inacessível.
Portanto, cabe ao Ministério da Saúde a criação de um Projeto Nacional que instale em todas as 5.570 cidades brasileiras, por meio de verbas governamentais, banheiros móveis com disponibilidade de água limpa para banhos e absorventes gratuitos, visando, com isso, a ampla democratização da dignidade menstrual para todas as “Carolinas” do país.