Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 08/02/2021
No livro Admirável Mundo Novo, escrito por Aldous Huxley, é retratado um mundo distópico onde a divisão dos seres humanos em castas ocorre por determinação genética e condicionamento pavloviano. Ao longo da trama, os trabalhadores braçais sofrem condicionamento na infância para odiarem livros, a natureza e, consequentemente, a arte. Nesse sentido, a narrativa revela que as personagens aprendem a amar apenas o trabalho a que serão submetidas ao longo de suas vidas. Fora da ficção, fica claro que a realidade apresentada no livro pode ser relacionada com a vivida por muitos jovens que frequentam o sistema público educacional no Brasil do século XXI: muitos não aprendem sobre o que é a arte e, por isso, não a reconhecem nas ruas e tão pouco a valorizam.
Em primeiro lugar, é importante destacar o que é arte. Para o filósofo grego Aristóteles, a arte imita a natureza (mimesis) e, por vezes, a completa. Segundo o mesmo filósofo, está na origem da atividade artística a propensão natural do homem a imitar. Nesse contexto, a arte surge na pré-história, quando o primeiro homem ou mulher recriou o seu cotidiano nas paredes da caverna que habitava, criando as primeiras pinturas rupestres. Dessa forma, a arte pode ser entendida como uma manifestação humana universal, pois existe em todas as culturas, transmitindo ideias, sentimentos, crenças e emoções. Ademais, a arte também pode ter uma finalidade transgressora, expondo ao mundo uma visão crítica e nem sempre agradável da realidade. A arte urbana, por exemplo, pode ser entendida como uma arte crítica. Por intermédio do grafite, que é o ato de registro com “sprays”, pode-se criticar a sociedade desigual e injusta no qual está inserido o artista. No documentário Cidade Cinza, por exemplo, os Gêmeos, dois grafiteiros famosos internacionalmente abordam o grafite como uma arte urbana. E, ambos, reconhecem que ela deve ser utilizada pelos jovens como meio de expressão, enxergando-se nas paredes um painel onde se deve registrar as necessidades e injustiças vividas por sua comunidade. Paralelamente, artistas brasileiros como os Gêmeos e outros europeus como Banksy e Robbo, assumem que a cidade é feita para os moradores e não para os políticos e empresas. Logo, a arte urbana, deve estar a serviço do bem estar da população, colorindo e alegrando o ambiente.
Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual da arte no contexto da educação brasileira. Formando-se cidadãos e não pessoas condicionadas a apenas uma área do saber. Para que haja uma vitória contra o concreto cinza das cidades, urge que o Ministério da Educação elabore, por meio de ações com o Ministério da Cultura, projetos e programas no qual seja possível trabalhar de forma transversal nas escolas a arte na matemática, na história, na dança, no grafite. Só assim teremos um mundo novo, mais colorido e belo para todos.