Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 08/02/2021
A arte rupestre é considerada uma das manifestações artísticas mais antigas da Pré-história, uma prática cultural na qual a arte se inscreve por meio da expressão e a transcrição dos momentos vivenciados pelas comunidades pré-históricas. O grafite, irmão contemporâneo da linguagem visual rupestre, segue a mesma linha de raciocínio de maneira mais sofisticada: relatar acontecimentos que impactam o âmbito social. Nesse sentido, no que tange a desvalorização da arte urbana, percebe-se a persistência deste problema intrínseco à realidade brasileira. Logo, cabe analisar o impacto negativo da elitização da arte e as distorções no que dizem respeito à valorização do grafite no âmbito nacional.
Em primeira análise, é licito postular que a inacessibilidade da arte dentro da esfera social não deve persistir quando relaciona-se com o grafite. Sob esse viés, ao longo do documentário “Cidade Cinza” é abordada a relevância do grafite estar presente no âmbito urbano, haja vista que faz parte da identidade original desta linguagem visual. Todavia, nota-se cada vez mais o distanciamento do grafite na paisagem urbanística e a movimentação deste para o centro dos museus. Dentro desse prisma, cabe ressaltar a relevância do grafite no processo de aproximação à arte por parte de grupos minoritários sem acesso à ambientes elitizados como os museus, dado atestado pelo levantamento do IBGE feito no ano de 2018, onde somente 25,9% dos municípios do país possuíam museus. Sendo assim, é crucial que o grafite resista ativamente no contexto urbano, para que mantenha sua verdadeira identidade democratizada.
Nesse espectro, vale ressaltar o projeto “cidade limpa”, idealizado no governo de João Doria, no estado de São Paulo. O projeto, que defendia uma cidade sem construções poluídas com pichações, apagou todos os grafites da Avenida 23 de Maio. Paralelamente, a atitude do governo paulista dialoga com a confusão feita pela sociedade sobre a diferença entre grafite e pichação. Por fim, essa ação atesta a desvalorização da arte urbana por parte do governo, que incentiva a população a reproduzir as mesmas atitudes de repúdio contra os grafiteiros e suas obras.
Em suma, fica evidente a necessidade de democratizar e informar a população sobre a identidade do grafite. Portanto, o Ministério da Educação deve incentivar ações socioeducativas em escolas e ambientes públicos que visem estabelecer limites entre o significado de grafite e pichação, além de promover por meio de eventos sociais que a comunidade coparticipe do processo de grafitação junto aos grafiteiros em ambientes públicos das cidades. Somente assim, será possível superar os desafios de valorização da arte urbana, além de manter e democratizar sua moradia nas ruas.