Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 08/02/2021
Em 1922 ocorreu, cem anos após a independência política do Brasil, a Semana de Arte Moderna na cidade de São Paulo. No evento, além da defesa da emancipação da arte nacional em relação à europeia, foi proposta uma eliminação de estereótipos estéticos propagados nas representações artísticas anteriores. Todavia, ainda hoje, quase um século após o início de tal desconstrução, preconceitos referentes à arte urbana ainda são frequentes e dificultam a valorização dessa expressão contemporânea. Assim, tanto a perpetuação de conceitos arcaicos, como a negligência das instituições sociais frente à temática contribuem com essa realidade nacional. Em primeiro lugar, convém analisar a influência da visão estereotipada oriunda de antigos conceitos relacionada à arte na depreciação das manifestações artísticas urbanas. Nesse contexto, observa-se que, desde meados do século XX, Duchamp já preconizava e defendia, a partir do movimento Dadaísta, um conceito fluido de arte, o qual valorizava a ressignificação de objetos e de situações do cotidiano. Entretanto, apesar da validade teórica desse pensamento, pessoas ainda interpretam de forma depreciativa e preconceituosa manifestações urbanas contemporâneas – a exemplo do grafite-, por pautarem-se em arcaicos conceitos ainda perpetuados. Dessa forma, os grafiteiros e os demais artistas de rua são, muitas vezes, rebaixados e desqualificados e a visão defendida há anos por Duchamp perpetua-se pouco expressiva na sociedade. Ademais, o a apatia das instituições sociais – como a mídia e a escola- frente à arte urbana tende a dificultar a valorização dessa forma de manifestação. Em relação a isso, vê-se que, apesar de ter havido avanços – como a criação de murais para a exposição de grafites na cidade de São Paulo-, esse conceito de arte ainda é pouco discutido nos meios formadores de opinião. Tal fato é ratificado pela escassa aparição de grafiteiros nas grandes mídias nacionais e pela insuficiente presença do debate acerca de tais obras nas aulas do ensino básico. Desse modo, com pouca representação social, o grafite como arte urbana, por exemplo, mantém-se invisível ao olhar crítico de grande parte da população e a modernização artística proposta em 1922 ainda é, muitas vezes, restrita. Portanto, para superarem-se estigmas arcaicos acerca da arte urbana e para promover-se uma maior valorização desta, faz-se imprescindível uma intervenção estatal. Destarte, concerne aos Ministérios da Educação e da Cidadania – como instâncias máximas na elaboração de projetos voltados a superação de mentalidades sociais- o dever de criar o projeto “Grafite é Arte”. O intuito dessa ação é, por meio de parcerias público-privadas entre as esferas municipais e estaduais do governo, as grandes mídias – como a TV e as redes sociais- e as escolas, criar exposições gratuitas de arte urbana nas principais cidades do país, as quais serão amplamente divulgadas e visitadas pelos alunos dos ensinos fundamental e médio das escolas nacionais. Espera-se, com isso, gerar uma mentalidade que reconheça os valores da arte contemporânea urbana e, consequentemente, que se alinhe com os conceitos pregados em 1922.