Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 15/02/2021
A arte rupestre é uma das manifestações artísticas mais antigas da pré-história, uma prática na qual a arte se inscreve por meio da expressão e a transcrição dos momentos vivenciados pelas comunidades pré-históricas. Sem dúvida, o grafite relaciona-se com as manifestações rupestres, mas é impedido de ser expresso com êxito no seu ambiente democrático: a paisagem urbana. Nesse sentido, no que tange à desvalorização da arte urbana, percebe-se a notoriedade desse problema. Logo, cabe analisar o impacto negativo da elitização da arte e a deslegitimação do grafite no domínio público
Em primeira análise, vale ressaltar o intenso processo de elitização que o grafite é acometido. Sob esse espectro, cabe mencionar o documentário “Cidade Cinza”, que aborda a relevância do grafite estar presente no âmbito urbano, haja vista que as ruas deveriam ser espaços legitimados para esse tipo de expressão. Todavia, constata-se cada vez mais o oposto disso, isto é, o distanciamento e a movimentação do grafite da paisagem urbanística para o centro dos museus. Por conseguinte, esse processo afeta os grupos minoritários sem acesso a esse tipo de ambiente elitizado, dado atestado pelo portal de notícias Estadão, onde somente 25,9% dos municípios do país possuíam museus. Sendo assim, é crucial que a paisagem urbana torne-se um ambiente legitimado para a expressão do grafite, não distanciando-se para espaços antidemocráticos.
Em segunda análise, é licito postular a deslegitimação do grafite dentro da esfera social. Sob esse viés, de acordo com a notícia publicada pelo g1 globo, o projeto “cidade limpa”, idealizado durante governo de João Doria, no estado de São Paulo, que defendia uma cidade sem construções poluídas com pichações, apagou todos os grafites da Avenida 23 de Maio. Paralelamente, a atitude do governo paulista dialoga e acentua o problema enfrentado pelo grafite, haja vista que as estruturas de poder tendem a incentivar a população a reproduzir o preconceito com a arte urbana, desvalorizando-a. Outrossim, vale salientar a ausência de projetos que legitimem o grafite como arte, isto é, desmistificar o conceito de expressão urbana com o de pichação, que marginaliza e extrai a essência dessa linguagem visual dentro do contexto urbanístico.
Por fim, fica evidente a necessidade de legitimar o grafite como arte dentro da esfera urbana. Portanto, o Ministério da Educação deve incentivar ações socioeducativas em escolas e ambientes públicos que visem estabelecer limites entre o significado de grafite e pichação, além de promover por meio de eventos sociais que a comunidade coparticipe do processo de grafitação junto aos grafiteiros em espaços populares das cidades. Dessa maneira, será possível superar os desafios de valorização da arte urbana, além de manter e democratizar sua moradia nas ruas.