Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 11/02/2021

Durante a Idade Média, a escassa produção artística esteve restrita aos interesses ornamentais e catequéticos da Igreja, situação que veio a mudar com a ascensão da burguesia: atuando como patrocinadora, viu na arte um potencial para alcançar sua visibilidade e, por isso, incentivou sua produção. De maneira análoga, a “street art” veio a se propagar na contemporaneidade, em que, por meio desta, camadas marginalizadas reivindicam seu espaço cada vez mais. No entanto, embora seja um instrumento de expressão popular, a sua valorização é impedida pelo expressivo preconceito entre os brasileiros.

Em primeiro lugar, deve-se reiterar a relevância da arte urbana, que, tendo como suporte locais públicos, destaca-se pela sua pioneira acessibilidade, complementar ao seu teor político e social. Seu impacto remete ao da Semana da Arte Moderna de 1922, em que as composições, por meio do estímulo ao pensamento crítico e à consciência artística, contribuíram para a formação de uma identidade genuinamente brasileira e à independência cultural de moldes europeus. Dessa forma, em consonância com a teoria aristotélica de que a arte é mimese da realidade, tais produções atuam como “porta-vozes” do povo, refletindo os seus medos e vontades.

Entretanto, tamanha importância é desprezada diante do despreparo da sociedade para tais manifestações artísticas, fato que ficou evidente quando grafites foram apagados para dar lugar à divulgação da festa do curso de medicina da Universidade de São Paulo. Esse desprezo, também presente na Semana do 22 – que culminou na comparação dos artistas a loucos – se deve à força do academicismo na mentalidade popular. O movimento é marcado pelo foco no ensino da técnica e pela valorização da estética em detrimento da criatividade e questionamento; logo, sob o olhar do observador comum, a arte que destoa do padrão realista e belo não é merecedora de tal denominação.

Portanto, é evidente o desafio representado pelo preconceito na valorização da arte urbana entre os brasileiros, problema que prenuncia a necessidade de intervenção. Para tanto, o Ministério da Cultura, em aliança com artistas locais, deve promover eventos que favoreçam a apreciação dessas obras por meio da exposição de seu valor e, inclusive, por convites à participação dos habitantes em sua criação. Assim, espera-se que, com a compreensão de suas motivações e o estímulo à consciência artística, a superação os estigmas ligados à arte urbana seja enfim alcançada.