Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 12/02/2021
No século XVI, com a chegada de escravos africanos ao Brasil colonial, a forte presença cultural desse povo foi motivo de incômodo para os portugueses, que desprezavam a cultura dos recém-chegados e dos povos nativos. Considerando-os inferiores, e a fim de impor a predominância da cultura europeia, os colonizadores catetizavam os índios e cortavam os cabelos dos negros, que, através de tranças expressavam parte da cultura de seu povo. Sob tal ótica, é inequívoco que o enraizamento da perspectiva eurocêntrica na sociedade hodierna associado à capitalização da cultura, engendram grandes desafios para a arte urbana no Brasil.
Na obra modernista Macunaíma, Mário de Andrade tinha por objetivo resgatar a identidade cultural do Brasil denunciando o eurocentrismo presente nas obras e sociedade da sua época. Em um dos trechos, o protagonista índigena ao tornar-se branco, após lavar-se em uma poça mágica, e chegar à São Paulo, passa a se comportar de modo contrário à cultura de seu povo, deixando evidente o abandono de sua identidade cultural. Sob esse viés, a desvalorização da arte urbana está diretamente ligada à escassez de prestígio pelo que é culturalmente brasileiro. Há décadas “artistas de ruas” buscam reconhecimento de sua arte, muitos, impondo respeito através de grafites espalhadas por todos os lugares transfigurando as cidades brasileiras para uma identidade própria. A arte urbana, expressa em símbolos; grifos; desenhos; caricaturas; pinturas; é reflexo da cultura periférica brasileira, que, através da arte busca voz para expor suas ideias e ideais ao mundo.
De outra parte, o mercado capitalista da cultura, impossibilita aos artistas urbanos fazer da arte uma profissão. Félix Guattari, filósofo, em suas análises acerca dos sentidos de cultura, explicou a chamada cultura-mercadoria como sendo a que é tratada e vendida como mercadoria, e que como consequência, prioriza a que é mais rentável. Visto que a arte é objeto de identificação entre indivíduos, e que em sua maior parte, a arte urbana retrata a visão periférica acerca do mundo, o público-alvo dessa expressão cultural é por decorrência a classe de baixo poder aquisitivo que não tem como consumir financeiramente essa cultura. Logo, se não há um mercado consumidor, por conseguinte não há espaço para o desenvolvimento artístico urbano.
Em virtude dos fatos mencionados, a desconstrução do eurocentrismo, ainda latente na sociedade brasileira, e um mercado cultural que prestigie a arte urbana, se faz necessário. Portanto, cabe ao Ministério da Cidadania por meio das secretárias estaduais e municipais promover concursos para artistas urbanos que visem a pintura de espaços públicos como forma de engendrar na população o reconhecimento artístico de um trabalho que expressa em muito o país.