Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 23/02/2021
Durante o século XIX, enquanto a elite brasileira consumia obras literárias advindas da europa, havia uma subvalorização da cultura popular nacional, já que manifestações artísticas como a capoeira e o frevo eram estigmatizadas e marginalizadas em nosso território. De forma análoga aos dias atuais, percebe-se que a arte urbana manifestada pelas classes mais baixas do país geram um desconforto na população, que a associa constantemente a atos de vandalismo, configurando um caso de preconceito baseado na formação do pensamento do cidadão brasileiro e na falta de ações que valorizem esta arte.
Não é de hoje que existe, no Brasil, uma supervalorização dos costumes internacionais, na música “Geração Coca-Cola”, da banda “Legião Urbana”, há uma crítica clara aos processos decorrentes da globalização, enfatizando os males que esta trouxe para a nossa população, dentre eles, a inserção desenfreada da cultura estrangeira no país, que impacta de forma prejudicial a cultura nacional. Desta maneira, o povo brasileiro acaba crescendo acostumado a gostar do que possui origem fora e desprezar o que é criado dentro da própria nação, provocando, sobretudo, uma desvalorização da arte brasileira, fazendo com que os artistas não possuam reconhecimento suficiente para que este cenário seja alterado, o que é agravado quando se trata das expressões artísticas marginalizadas.
De forma simultânea, pouco se tem feito pelos órgãos competentes para que esta realidade seja alterada. Um exemplo deste fato é que a Lei Rouanet, uma das principais leis responsáveis pelo incentivo artístico no país, teve, em 2019, seu teto de investimentos alterado de 70 milhões de reais para 1 milhão de reais por projeto cultural, o que traz à tona a despreocupação do governo federal quanto à questão da desvalorização da cultura brasileira, principalmente no quesito da arte urbana, já que a grande maioria das suas obras retratam críticas e manifestações direcionadas aos mais variados aspectos da sociedade, incluindo desaprovação aos próprios governantes.
Deste modo, pode-se concluir que ainda há um grande estigma atrelado à arte urbana no Brasil, agravado pela estruturação do pensamento do cidadão brasileiro e pelo descaso dos governantes quanto ao fato. A partir disto, infere-se que deve haver um maior investimento por parte da Secretaria Especial da Cultura em projetos que tragam à tona a importância dessa manifestação artística, de forma com que haja maior conscientização e engajamento das camadas populares.