Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 01/03/2021

A arte urbana é um dos tipos mais antigos de arte, sendo possível encontrar exemplos desde a idade antiga, no império romano, até a contemporânea, nas ruas de centros urbanos atuais. No entanto, há quem considere essa forma artística um tipo de vandalismo, e essa atitude conservadora é, com frequencia, um obstaculo à preservação dessa forma de cultura.

Um exemplo disso foi a remoção de diversos murais contendo obras por artistas importantes, como Kobra, na cidade de São Paulo em 2019. A administração do então prefeito João Dória, que substituiu os grafites por muros cinzas, apresentou uma suposta vandalização das obras, que estariam cobertas por pichações, como justificativa para a remoção. Essa justificativa demonstra um desentendimento do escopo da arte urbana, fazendo uma separação rígida entre a “arte” (grafite) e o “crime” (pichação).

Na realidade, a linha que divide as duas formas é tênue, dadas as naturezas estéticas, expressivas e sociais da pichação. Não é possível enquadrar toda pichação como arte. No entanto, criar uma linha artificial separando as duas coisas leva a uma criminalização gradual de toda a arte de rua, em que todo desenho na parede é igualado ao vandalismo. Não é a pichação que ataca o grafite, e sim a tinta cinza usada para apagá-lo.

Ademais, a desvalorização da arte de rua tem um caráter elitista, dada a natureza tipicamente periférica e socialmente crítica do grafite e da pichação. Cortar a presença da arte urbana nas cidades equivale a censurar uma forma de expressão de uma camada da população que já não tem acesso a muitos meios culturais. Formas similares de censura ocorrem com a marginalização do Rap e do Funk, enquadrados como generos “criminosos” há décadas pelo Brasil. No passado, algo similar ocorria com a criminalização da Capoeira, outra forma de arte de origem periférica.

Mesmo com ações concretas, mentalidades coletivas só mudam com o tempo. Uma forma de valorizar a arte urbana é a incluindo nos currículos escolares como uma forma artística a ser reconhecida, já desde a educação infantil (medidas que caberiam ao MEC em um nível federal). Ações, no entanto, podem ser mudadas de imediato. É, portanto, urgente a maior valorização da arte urbana pelas instituições competentes (em nível federal, a secretaria da cultura, no ministério da cidadania, assim como em nível estadual e municipal) e sua preservação, a ser realizada pelas respectivas prefeituras.