Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 28/02/2021
A letra da canção “Cidade dos Artistas”, do músico e dramaturgo Chico Buarque, destaca por meio do trecho “Ser artista/ Na cidade/ É comer um fiapo/ É vestir vestir um farrapo” os desafios enfrentados pelos indivíduos brasileiros que utilizam a produção artística como forma de trabalho. Todavia, apesar das aprovações de leis como, por exemplo, a 706/07 de 2009, perpassa hordienamente a desvalorização das artes urbanas como diversidade cultural. Portanto, cabe ressaltar como fatores que consolidam esse panorama, a produção artística elitizada, junto aos resquícios do processo de Ditadura Militar no Brasil.
Em primeiro plano, é válido mencionar como desafio para o reconhecimento da chamada “street art”, o processo de estetização contemporânea delineado pela lógica capitalista. Pela via ideológica, formenta-se a disseminação de um “padrão cultural”, adjetivado como o “melhor” para o social, sendo homogeneizadas, sob a ótica de mercadoria e consumo. Essa realidade, consequentemente, traz malefícios para a inserção de diferentes produções artísticas. Segundo a UNESCO, a cultura atribui ao ser humano a capacidade de refletir sobre si mesmo. De modo que, não trata de se concentrar no aspecto “fotogênico” do lugar, mas de buscar uma inovação na sua dimensão artística, fora do conceito de estética.
Além disso, a marginalização das manifestações artísticas como, por exemplo, o grafite e a pichação, ainda tem suas raízes no processo do Regime Militar, ou seja, na época em que a arte não podia ser expressada de forma livre, pois era censurada para fins de interesse político. Esse raciocínio é consonante ao projeto da Prefeitura de São Paulo, em janeiro de 2017, que apagou o maior mural de grafite a céu aberto da América Latina. Nessa perspectiva, mesmo após décadas, ainda é possível visualizar a existência de repressão contra a arte urbana no país.
Conforme diz Newton, um corpo tende a permanecer em seu estado até que uma força atue sobre ele. Desse modo, a aplicação de força suficiente contra o percurso da desvalorização da arte urbana no Brasil é imprescindível e um caminho para combatê-la. Diante disso, torna-se imperativo que o Governo Federal, junto ao Programa Nacional de Apoio à Cultura, incentive, por meio de veículos midiáticos, a valorização de manifestações artísticas marginalizadas na sociedade brasileira contemporânea. Para que, assim, seja preservada a pluralidade de expressão e o avanço intelectual da população.