Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 28/02/2021
Nos versos “Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo” Elis Regina, ainda no século XX, usa a música como forma de denuncia e análise da realidade sob a perspectiva dela. De maneira análoga, os artistas de rua, já no século XXI, utilizam a arte para demonstrar em seus painéis, assim como Elis fez em suas canções, os diversos contrastes que há na sociedade brasileira. Entretanto, nota-se que os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil se perpetuam, sejam pelo preconceito, sejam pela elitização da arte. Assim é fundamental propor medidas que combatam tais empecilhos.
Percebe-se, de início, que a desvalorização da arte urbana brasileira está diretamente ligada ao preconceito, por parte da população, com esse tipo de obra. Isso acontece porque, segundo Nelson Rodrigues, os brasileiros tendem a se colocarem na posição de inferioridade e a valorizarem mais a produção cultural de outros países, caracterizando o complexo de vira lata. Desse modo, a falta de identidade da população impede o reconhecimento das próprias “vanguardas” e corrobora para a manutenção de padrões artísticos elitizados. Logo, tendo em vista que a arte urbana é livre com relação à prensença ou à ausência de temas e difere dos padrões institucionalizados, diversas vezes é prejulgada como inferior, vândala, lixo, entre outros adjetivos pejorativos .
Além disso, observa-se que a desaprovação das obras urbanas, sejam elas de denuncia ou de embelezamento das ruas, não está restrita apenas à população cívica, mas estende-se também aos representantes do país. Essa questão ocorre devido à elitização da arte, pois uma minoria detentora dos melhores bens e serviços, fundamentada em ideais estilísticos adquiridos ou reproduzidos de outras culturas, legitima a arte nacional. Dessa forma, à medida que alguns artistas de rua expõem suas obras em galerias e são aclamados, outros que exibem somente em murais e painéis urbanos enfrentam a resistência da sociedade. Ilustra bem isso o documentário “Cidade cinza”, no qual um representante da prefeitura de São Paulo manda apagar um mural de grafite em virtude de não considerar arte.
Portanto, diante desse cenário de resistência, é crucial que o Ministério do Turismo, mais especificamente a Secretaria da Cultura, promova a popularização da arte de rua. Tal ação acontecerá por meio de debates e campanhas de valorização nos principais veículos de comunicação, as quais abordarão a importância e a maturidade das obras artísticas urbanas, afim de superar o preconceito e a elitização. Afinal, do mesmo modo que Elis viu “vir vindo no vento cheiro de nova estação” é chegada a hora que a estação da apreciação da arte urbana, de fato, venha e seja presente, trazendo mais cores e beleza às ruas e às paisagens brasileiras, sem que haja subjulgamentos.