Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 24/02/2021
O “complexo de vira-lata” é um conceito criado pelo dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues: “Por esse título, entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Esse termo é capaz de ser aplicado perfeitamente no âmbito artístico do país. O Brasil demorou muito para desenvolver escolas e padrões estéticos próprios, o que criou uma dependência europeia, e isso desembocou em um certo enrijecimento da disseminação da arte alternativa ao formato euro-brasileiro. Em pleno século XXI, a dinâmica do velho continente e da elite ainda regem, de certa forma, a dinâmica cultural nacional, na distribuição e no conceito de arte.
Mormente, é justo afirmar que o problema não está relacionado a nenhum déficit na oferta artística do país. O desafio-mor é tirar das mãos da grande mídia o papel de compartilhar o estilo artístico que a massa deve consumir. As pessoas são perfeitamente capazes de valorizar o produto genuinamente nacional, entretanto, só podem fazer isso quando o dito chega até as mesmas. A Big Data, conceito do filantropo Gideon Gartner, é a soma das informações adquiridas através da navegação nos meios digitais. Essa inteligência artificial armazena os dados e libera conteúdo personalizado individualmente. O grande problema é que esse conteúdo está direcionado somente ao marketing, sem preocupação nenhuma com o consumo de material sociocultural, o que breca a disseminação digital da arte urbana.
Posteriormente, outro óbice que deve ser notado e superado é a supremacia elitista no que diz respeito ao conceito mais comum de arte. Existe uma ideia calcificada no âmago do senso comum que relaciona a arte ao belo, culto ou erudito, todavia, essa é também um meio de comunicação, que reflete a vida e a sociedade de uma determinada época, e essa informação é desconhecida pela maior parte da população. O quadro fica bem ilustrado quando a Unicamp, reconhecidíssima universidade paulista, causa o espanto da grande mídia com uma atitude admirável: O acréscimo ao currículo de leituras obrigatórias do ano de 2020 o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, de 1997, do grupo de arte periférica paulista Racionais Mc’s. A partir de inclusões parecidas, a verdadeira arte urbana brasileira poderá substituir a importação de um conteúdo, para nós, vazio, porque não representa a essência nacional.
Dado o exposto, algumas medidas devem ser tomadas para que seja superado o desafio da valorização da arte urbana no Brasil: O Estado, através do Ministério da Educação, deve modificar e ampliar o conceito de arte apresentado na rede pública de ensino, inserindo mais menções a temática supracitada, para criar assim, uma população culturalmente desenvolvida e desmistificada em relação ao consumo do produto essencialmente nacional e verdadeiramente representativo. Então, de forma gradativa e natural, a arte urbana ganhará prestígio, porque esta realmente retrata nossa realidade. nacional