Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 25/02/2021

O artigo 3º do documento jurídico mais imporante do Brasil - a Constituição de 1988 - destaca como objetivo do Estado proporcionar a extinção de discriminações e preconceitos de qualquer tipo. Conquanto, essa visão não é concretizada em diversos aspectos ligados às expressões artísticas, especialmente quando se trata de uma arte originada em ambientes marginalizados, tal qual a arte urbana. Por essa razão, a mesma arte que é externalizada com intervenções viscerais que convidam o transeunte a pensar em temas sociais, também é aquela vista como uma expressão sem importância pelas pessoas que, insensivelmente, associam periferia à inferioridade.

Primeiramente, é válido ressaltar que a eclosão de ideias artisticamente disruptivas sempre causou desconforto popular no Brasil. A exemplo disso, no século XX, quando a pintora Anita Malfatti abriu as portas para novas expressões vanguardistas no país, ela foi socialmente rechaçada por seus quadros de temática simples e de traços rígidos. Dessa forma, é natural pensar que, se um desvio no padrão eurocentrista pôde ocasionar tamanha crítica no século passado, hoje ainda não existe uma maturidade do povo brasileiro para disassociar as intervenções “diferentes do padrão” de uma visão de que essas expressões urbanas são uma mera extravagância desnecessária. Por isso, fica claro que a falta de estímulo à construção de sensibilidade artística da população brasileira perdura até os dias atuais.

Por um outro lado, vê-se que, mesmo entre as pessoas que compreendem a importância que a subjetividade da arte tem em manter a população sã diante das mazelas sociais, ainda existe uma visão preconceituosa sobre a mesma. Isso acontece, por exemplo, devido à associação de uma das principais demonstrações artísticas de rua - a grafitagem - à um simples ato de vandalismo como a pixação. Com isso, associa-se, incoscientemente, a origem humilde da grafitagem à uma representação artística inferiorizada. Essa linha de raciocínio, seguindo o pensamento da filósofa Hanah Arendt, é o pior dos males socias, pois se tornou cotidiano. Por esse motivo, muitas variações dessa arte característica de grupos menos favorecidos ainda não são exploradas em todo o seu potencial nas ruas do Brasil.

Portanto, para transpor as barreiras que impedem a arte urbana de ser propriamente valorizada, algumas ações devem ser postas em prática. Inicialmente, o Ministério da Educação deve tornar obrigatória a presença de aulas de História da arte nas escolas brasileiras por meio de uma lei federal que estipule uma carga horária mínima de 4 horas semanais dedicadas ao tema, gerando mais sensibilidade artística desde a infância. Em seguida, os gerentes de museus nacionais devem fixar ao menos uma exposição de arte urbana por ano, estimulando a visão desse tema como algo natural em meios elitizados e transformando muros opressores em painéis para expressar a voz do povo brasileiro.