Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 26/02/2021

No final século XIX, a escola literária do Parnasianismo caracterizava-se pelo destaque dado ao preciosismo formal e estético. Nesse cenário, tal movimento restringia o acesso e o fazer artístico a grupos privilegiados da sociedade. Desse maneira, nota-se que essa visão limitante ainda influencia o atual pensamento dos brasileiros e dificulta a valorização de expressões modernas, como a “street art”, que buscam se aproximar da população. Nesse sentido, é válido analisar a elitização da arte e a desqualificação desse movimento urbano como os principais entraves ao seu reconhecimento.

A priori, é preciso destacar que a difusão de padrões estéticos apresenta-se como um desafio para a valorização da arte urbana, pois impede a população de entender a relevância dessa modalidade como meio de expressão. Nesse viés, essa perspectiva restitiva exemplifica a tese do “Habitus”, do sociólogo Bourdieu, o qual afirma que o comportamento dos indivíduos são influenciados pelos costumes do ambiente em que vivem. À vista disso, é perceptível que, no Brasil, o conceito de arte identifica-se com essa lógica, já que essa visão resulta de um longo processo de construção liderado por uma pequena camada privilegiada da comunidade. Nesse contexto, a determinação de uma concepção elitista, seja pelas escolas, seja pela falta de apoio governamental, ainda conduz a formação dos sujeitos, fato esse que, frequentemente, reprime e desconsidera a arte popular. Dessa forma, ao afastar a identificação e limitar a criação de uma consciência artística, esse cenário dificulta o reconhecimento da “street art”.

Ademais, é necessário citar que a arte urbana, como um reflexo das mazelas populares, encontra na repressão da classe dominante um difícil obstáculo. Esse controle está relacionado às ideias do filósofo Karl Marx, segundo o qual a infraestrutura dirige a superestrutura, ou seja, as relações econômicas conduzem os vários aspectos da vida social. Sob essa perspectiva, a propagação de uma visão negativa sobre as intervenções urbanas, como sua associação ao vandalismo, revela-se uma tentativa do grupo detentor do poder de frear um movimento que ameça seu domínio sobre a sociedade. Nessa lógica, essa possibilidade manifesta-se pela busca dessas expressõe artísticas em desenvolver o senso crítico da comunidade e chamar a atenção para temas relevantes. Assim, a difusão de estereótipos prejudiciais e a criminalização da “street art” limitam o apoio social e contribuem para a persistência da passividade.

Logo, para valorizar a arte de rua, as escolas devem romper com a elitização por meio da adoção de um ensino mais amplo que apresente a importância dos diversos aspectos culturais e esclarecereça sobre a ausência de padrões que determinem o fazer artistico, a fim de conscientizar a população. Ademais, o Estado deve incentivar a “street art” mediante o apoio econômico e a realização de projetos que permitam a intervenção em prédios público das metrópoles, visando ampliar esse movimento.