Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 01/03/2021

Desde as radicais revoluções culturais e sociais dos anos 60, que ficaram popularmente conhecidos como “anos rebeldes”, a arte de rua vêm tomando espaço nas cidades brasileiras. No entanto a valorização e aceitação pelo público e autoridades, é ainda um desafio a ser vencido em nosso país. Em 2017 o atual governador do estado de São Paulo, na época prefeito da capital estadual, determinou que fossem apagados os grafites da Av. 23 de maio, gerando grande polêmica entre a opinião pública. Vê-se, neste talante, que a arte urbana é ainda marginalizada na atualidade, seja ela o grafite, o malabares que vemos nos sinais ou até mesmo o artesanato de rua, muito popular em praias e praças públicas. Percebemos assim, a necessidade de incentivos culturais, para que essa arte, que expressa o olhar de uma parte muitas vezes vunerável da sociedade, não se perca por trás de uma camada de cal.

Segundo o entendimento de Rui Barbosa, não é possível estar dentro da civilização e fora da arte. Esta frase nos remete ao entendimento de que, independente raça, crença ou classe social, o ser humano, possui uma relação intrínseca com a arte, necessitando expressar suas vivências e seu olhar, enquanto indivíduo social. Desta feita, surge a arte urbana, que além de expressar a cultura de um povo, traz consigo denúncias importantes a respeito da opressão e sofrimento vivenciado por àqueles que estão à margem. E por esse motivo, toda e qualquer tentativa de apagar, proibir ou silenciar a arte urbana, tem por si só carater repressor, pois acrescenta um novo desafio na luta pela valorização desse tipo de arte.

Em 2017 quando a cidade de São Paulo vivenciou a “maré cinza” de João Dória, com inúmeros grafites sendo apagados na Av. 23 de maio, não estivemos só diante de uma polêmica artística, mas de uma situação na qual os interesses da elite e de sua concepção artística, esmagaram e silenciaram artistas que queriam apenas expressar a vivência, a história e a revolução de seu grupo social. A utilização do poder executivo, na opressão de uma vertente cultural licita, promoveu a ofensa ao direito constituional à cultura e lazer, uma vez que, nos termos da Carta Magna, cabe ao Poder Público a adoção de políticas públicas que promovam a proteção ao patrimônio cultural, o reconhecimento e a proteção dos direitos, incluindo os de livre expressão e criação.

Por todo o exposto, tem-se, portanto, que a Constituição Federal, ao dispor do direito à cultura e lazer não impôs qualquer discriminação a vertentes artísticas. Desta feita, se faz necessário o fomento, pelo Poder Público, de amparo e incentivo a toda e qualquer expressão artística, seja ela clássica ou moderna, elitizada ou popular. Apenas com a promoção da arte, sem discriminação, poderemos vencer os desafios à valorização e reconhecimento dos artistas de rua e da arte que eles exalam todos os dias pelas nossas cidades.