Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 28/02/2021
No ano de 1904, a elite brasileira ficou estarrecida com uma recepção oficial ocorrida no Palácio do Catete, então sede do governo federal. Isso porque a primeira-dama da época decidiu ir de encontro aos costumes vigentes e, em vez das valsas, que eram comuns em eventos do período, ela convidou um violonista para reproduzir um maxixe composto pela compositora brasileira Chiquinha Gonzaga. Tal feito ocasionou fortes críticas ao casal. Nos dias atuais, embora inúmeros movimentos tenham ocorrido com o intuito de valorizar a cultura nacional, ainda é muito comum o preconceito contra a arte popular, sobretudo a urbana, devido à desvalorização desse tipo de arte desde o período escolar, bem como a ainda presente elitização e valorização da cultura exterior.
É válido analisar, inicialmente, que há uma grande desvalorização da arte popular. sobretudo a urbana, ainda no período escolar. Isso ocorre, pois, ao longo da história, a cultura produzida pela população sempre foi marginalizada, a exemplo do samba, que já foi criminalizado e do grafite, que ainda é tratado como forma de vandalismo por boa parte da sociedade. Essa conjuntura relaciona-se com o conceito de habitus do filósofo francês Pierre Bordieu, o qual afirmava que o indivíduo absorve tudo aquilo que vê durante sua experiência em sociedade e reflete esse exemplo em suas ações. Dessa forma, a ausência de contato do cidadão com os diferentes tipos de arte contribui para que ele reproduza os preconceitos já enraizados no cotidiano, como no caso das intervenções urbanas.
Ademais, o processo de elitização da arte que ocorreu no país ocasionou a supervalorização de elementos do exterior. Nesse contexto, a cultura europeia ocupou um status e significado importante na sociedade. Conforme o estudioso brasileiro Nelson Rodrigues, a população brasileira possui a “Síndrome do Vira-lata”, na qual a sociedade tende a menosprezar tudo que é produzido no território nacional e a valorizar a cultura produzida em outros países. Dessa maneira, assim como o maxixe de Chiquinha foi considerado vulgar no início do século XX, o grafite ainda é subjugado e desvalorizado na sociedade atual.
São necessárias, portanto, medidas que tirem a arte urbana da marginalidade. Para isso, a Secretaria de Cultura deve promover um maior contato dos indivíduos com a cultura nacional e popular desde o período de escola. Isso ocorrerá por meio de um projeto a nível nacional, a ser adotado por colégios públicos e privados, cujo intuito será incluir na carga horária das diferentes séries, a visita a exposições e locais de produção e exposição de arte urbana, a fim de pôr fim ao estigma de que esse tipo de intervenção é uma forma de vandalismo, além de incentivar a maior valorização da cultura nacional desde a infância. Com isso, saberemos valorizar o que é nosso e deixaremos de ser “vira-latas”.