Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 10/03/2021
Na peça teatral ‘‘Eles não Usam Black-ties’’, que conta a história de Tião -um jovem proletariado que acredita que as greves nunca trazem benefícios concretos para os trabalhadores-, o personagem Juvêncio, por meio da música, faz uma comparação entre a vida dos pobres e a vida da elite, evidenciado as desigualdades econômicas. Nesse âmbito, fica claro que a arte, além de ser um reflexo da sociedade, também é um mecanismo muito importante para a luta dos oprimidos. A arte urbana é um dos maiores exemplos disso, porém apresenta muitas dificuldades para ser valorizada, uma vez que não só vai de encontro com os interesses do Estado, como também surge de locais marginalizados. Em primeiro lugar, é válido ressaltar que a arte tem sido usada como uma forma de garantir os interesses da elite. Nesse sentido, segundo Adorno e Hockeimer -autores neomarxistas-, a Indústria Cultural transformou grande parte dos processos artistícos em uma ferrmenta de maniupulação que fortalece o capitalismo. No entanto, a arte urbana, por mostrar a realidade desigual em que a sociedade vive, bem como realizar diversos outros tipos de denúncias, está longe de pertencer à Indístria Cultural e é uma ameaça para a elite. Esta, por deter o controle indireto e até mesmo direto do Estado, tenta reprimir a arte de rua. Sendo assim, fica nítido que essa arte popular não é valorizada porque contraria os interesses das pessoas que têm poder econômico e político.
Ademais, a arte urbana tem sua origem em regiões marginalizadas. Nesse sentido, durante a Primeira República, houve uma higienização nas cidades do Rio de Janeiro, isto é, as pessoas que viviam em cortiços foram desabrigadas e obrigadas a morar em péssimas condições dentro das favelas. Esse acontecimento histórico deixa evidente que o preconceito contra probres -que só estão nessa situação por negligência do Estado e da população- é algo enraizado na sociedade. Com isso, a arte urbana, por emergir de regiões periféricas, sofre uma grande desvalorização.
Em virtude dos fatos mencionados, são necessárias medidas para mitigar essa problemática. Dessa forma, para que a arte de rua possa ser valorizada, é fundamental que o Ministério da Educação (MEC) insira, por meio da reorganização do calendário escolar anual, em todas as escolas públicas e particulares uma aula semestral multidisciplinar ministrada por professores de sociologia, história arte. Essa aula deverá, com base em dados e em fatos históricos, apontar as injustiças proporcionadas pelo capitalismo e pelo Estado -não para acabar com eles, mas sim para aprimorá-los-, bem como mostrar a importância da arte urbana nas mudanças sociais. Assim, ‘‘os Juvêncios’’ poderão ser mais valorizados.