Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 16/03/2021

Dentre as muitas percepções veementes de Victor Hugo, expostas no livro intitulado “As contemplações”, está a de que “o progresso da roda constantemente sobre duas engrenagens: faz andar uma coisa esmagando sempre alguém”. Ao transcender estas palavras do poeta, dramaturgo e político francês para o cenário de obstáculos na valorização da arte urbana no Brasil, vê-se o olhar social pejorativo como agente limitante no reconhecimento deste movimento artístico. Sendo assim, a conjuntura de historicidade de marginalização do grafite e priorização dos ideais europeus de cultura acaba por explicitar ainda mais este conflito. Entretanto, deve-se ajustar determinadas engrenagens para mitigar e, se possível, extinguir esta problemática.

Ao longo da história, projetos expansionistas, como é o caso do Imperialismo Europeu, em que ideologias baseadas no eurocentrismo e no darwinismo social -teoria esta que pactua com a dominação de povos retrógrados- instigaram a percepção do grafite como vandalismo, o que deixa evidente o desprezo pela arte de rua e suas raízes de luta social. Por conseguinte, depreende-se que o caráter de denúncia e anseio coletivo expresso na arte do grafite vem na contramão da ideologia do controle de massa, sendo este domínio estabelecido pelos povos intitulados “evoluídos”, que procuram criminalizar expressões contrárias às deles próprios e, assim, garantir a liderança sob as outras manifestações.

Ademais, é perceptível a priorização na difusão da cultura erudita europeia em detrimento das demais formas culturais citadinas, havendo desta forma, um preconceito social direcionado, que distingue manifestações com base na orientação política, e não na valorização pluralista de todos os povos. À vista disso, é intuitiva a inobservância da Constituição Federal de 1988, em que é descrito, no Artigo 215, o direito irrefutável à expressão e ao fomento às diferentes correntes étnicas. Posto isso, é estritamente necessária uma intervenção social de equidade nesta problemática.

Em virtude dos fatos expostos e em consonância às palavras aqui pautadas, conclui-se que a sociedade atua limitando a manifestação artística de origens diferentes, impossibilitando-as de reconhecimento e valorização. Assim, para ajustar essas “engrenagens”, é primordial que o Ministério da Cultura crie uma feira nacional de arte de rua, em que seja abordada, por meio de palestras, exposições, e atividades coolaborativas com o público, a beleza da pluralidade no meio artístico. Dessa maneira, quando igualdade no reconhecimento artístico e sociedade forem alinhados, tornaremos o Brasil reconhecido como uma sociedade receptiva e democratizada culturalmente.