Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 22/03/2021

Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista, expõe em sua obra “Os Caminhos da Liberdade” o vínculo existente entre a liberdade e a responsabilidade social, no qual as atitudes de indivíduos e instituições refletem em todo corpo social, tendo essas, por fim, a necessidade de se basearem em valores éticos. Considerando a perspectiva sartriana na análise da arte urbana no Brasil, nota-se que os entraves na valorização decorre da manutenção de valores neoliberais que, amparados por discursos históricos, atuam na perpetuação do status quo e de seus interesses. Desse modo, compreender as causas mais profundas dessa problemática é fator fundamental para se apontar uma sociedade artisticamente democrática.

Com efeito, a história ocidental foi tecida por discursos que sedimentaram, na cultura moderna, a falsa ideia de supremacia de um grupo e seu ideal em relação aos outros. Desse contexto, emergiram atitudes sociais responsáveis por concretizar relações hierárquicas que naturalizaram processos de marginalização e discriminação, como o que ocorre em relação à arte urbana, a partir da vinculação desse tipo de arte com a sua origem periférica. Nesse viés, mesmo que a arte urbana funcione como ferramenta de democratização e emancipação, o atual sistema econômico engendrou ideais de valorização das coisas a partir do valor econômico agregado a ele.

Outrossim, certos valores neoliberais, como a supervalorização do capital, são os responsáveis pela perpetuação desse caráter discriminatório, ao criar um elo entre o belo e o poder econômico. Nesse sentido, cultivando o nocivo ideal de rotulação do culto a partir da arte consumida pelas elites, e marginalizando aquelas que têm origem popular. Assim, a perpetuação do status quo - o estado das coisas, - se faz presente a partir da criação de um ciclo de discriminação, e é alimentada por esses discursos de poder de caráter classicista.

Em suma, fica evidente o entrave na valorização da arte urbana em decorrência do sistema econômico vigente. Ainda, nota-se que a elite, mesmo munida do direito de liberdade de consumo, sob a ótica liberal, rompe com a responsabilidade social ao contribuir com esse ciclo. Dessa maneira, é dever do Estado, principal agente da garantia de igualdade, em parceria com os órgãos responsáveis e com as prefeituras municipais, atuar na manutenção do status quo, bem como no seu ciclo de negativas. Para isso, é necessário o desenvolvimento de políticas públicas no incentivo da arte urbana, como a criação de programas de preparação e designação de espaços estratégicos, como murais e prédios públicos, com o intuito de tornar essa arte presente no campo visual das diversas classes. Com isso, contribuindo para desvincular a arte de seus estereótipos e, consequentemente, para a valorização da arte urbana, correndo rumo a uma sociedade artisticamente democrática, bem como dos preceitos sartrianos.