Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 20/03/2021
“Chorou, mas estava invisível, e ninguém percebeu o choro”. Com esse trecho, da obra “Vidas secas”, o escritor Graciliano Ramos sintetiza a ausência de empatia perante o sofrimento alheio. Contudo, a indiferença ao outro não se limita à literatura, já que, na realidade, as vítimas da desvalorização da arte urbana também têm sido negligenciadas por parte dos governantes e da sociedade civil. Nesse prisma, cabe analisar a falta de políticas públicas de incentivo à arte de rua e o preconceito frente a esta no Brasil.
De início, pontua-se que o Poder Público revela-se omisso ao não combater a desvalorização da arte urbana. Isso porque existe uma deficiência no processo de assistência governamental, uma vez que falta destinar espaços públicos para a criação de museus abertos de arte de rua. Desse modo, percebe-se que a escassez de políticas de incentivo à arte urbana faz com que hajam poucos ou nenhum espaço para que artistas mostrem seus trabalhos, dificultando a consolidação do direito à liberdade de expressão. Vê-se, então, que direitos fundamentais de toda a coletividade não têm sido assegurados pelo Estado, demonstrando um desrespeito aos princípios previstos na Carta Magna de 1988.
Ademais, enfatiza-se que a desvalorização da arte urbana é um reflexo do preconceito enraizado na sociedade. Sabe-se, pois, que, historicamente, a arte de rua foi associada ao vandalismo e à poluição visual, principalmente em virtude do desconhecimento de sua importância não só como manifestação artística, mas também como veículo de protesto e denúncia social, responsável, inclusive, por estimular a criatividade e a consciência crítica na sociedade. Constata-se, assim, que esse cenário corrobora o pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche, posto que, segundo ele, a falta de informação tende a gerar visões estigmatizadas, as quais fortalecem problemáticas sociais.
Infere-se, portanto, que a arte urbana deve ser valorizada. Logo, é fundamental que o Estado, mediante atuações do Poder Executivo, promova a criação de museus abertos de arte de rua, por meio da destinação de espaços públicos voltados à exposição de murais, com o intuito de garantir locais para que os artistas mostrem seus trabalhos, consolidando, desse modo, o direito à liberdade de expressão. Além disso, é necessário que organizações não governamentais conscientizem a população sobre a importância da arte urbana para a sociedade, por meio de campanhas midiáticas, divulgadas em redes sociais, que exponham o impacto dessas manifestações artísticas para o desenvolvimento da criatividade e da consciência crítica, a fim de descontruir visões preconceituosas que as associam, por exemplo, ao vandalismo. Dessa forma, a indiferença frente às adversidades alheias poderia se restringir à obra de Graciliano Ramos.