Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 25/03/2021

Na música “Não é sério”, gravada pela banda Charlie Brown Jr. com participação da cantora Negra Li, é dito que “Eu sempre quis falar e nunca tive chance”, aplicando-se a realidade das expressões de arte das camadas mais pobres, que são subjugadas como vandalismo por não serem originárias de matrizes mais intelectuais, de modo que sofrem com descriminação e preconceito por parte de esferas da sociedade e do governo, que não visam valorizar tais expressões.

As manifestações artísticas distribuídas no espaço urbano como o grafite, pinturas, estêncil e cartazes, são corriqueiramente desprezadas pela sociedade, pois representam a voz daqueles que denunciam injustiças sociais contra as camadas mais pobres, chamando atenção da população por meio dessas expressões. Sendo assim, o desprezo inserido na percepção dessa arte é a marca de um Brasil que não aprendeu com seu passado de discriminação e indiferença no cuidado com as minorias, por parte da própria população, que não se interessa pela valorização dos símbolos de expressão dessas camadas. Portanto, o ato de admitir as formas de expressão cultural para além das formalizações é entender e valorizar o uso e democratização do espaço público, sendo garantia do pleno exercício dos direitos culturais de todos, independente do patamar financeiro ou da disparidade intelectual, tornando-se causa comum para a sociedade. Por isso, dar visibilidade e relevância para a arte urbana significa a defesa da participação política dos indivíduos que estão à margem do debate público.

Enquanto os agentes do poder público não promoverem ações que valorizem a arte urbana, o direito de liberdade à expressão garantido por lei é ameaçado. Assim como a desvalorização das expressões urbanas pautada sob a  justificativa de uma suposta necessidade de manter a beleza e simetria dos espaços é o extrato da falta de sensibilidade com as formas de manifestação cultural. Portanto, o governo deve agir de modo a intervir quaisquer formas de impedimento da expressão em espaços públicos, garantindo assim a isonomia que permite o indivíduo se manifestar, incentivando-o a expressar em arte aquilo que se sente, por meio de leis e programas sociais que valorizem as artes.

Visto que, a arte urbana é tida como forma de expressão das camadas sociais mais baixas e que é fundamental no espaço público, o governo deve trabalhar com políticas públicas que tenham por objetivo incentivar a valorização dessas artes, combatendo o preconceito e discriminação que permeiam esse contexto. Por isso, deve partir do Ministério da Cultura campanhas publicitárias que informem a população sobre a importância de se expressar, valorizando as artes que contribuem com o uso da liberdade de expressão como direito. Além disso, é importante vincular em parques e praças públicas a presença dessas artes, promovendo assim a popularidade e presença das expressões.