Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 23/04/2021

No longa estadunidense “8 Mile”, é retratada a vida de Jimmy, um jovem periférico que encontra no cenário musical urbano uma forma de expressão artística e ativismo social. Ao longo da trama, o jovem tem sua identidade artística desvalorizada em virtude da associação constante do meio urbano, no qual ele vivia e se expressava, a criminalidade e a incultura. Fora da ficção, a realidade vivenciada por Jimmy é análoga aos desafios para a valorização da arte urbana no Brasil, uma vez que a intervenção urbana artística no país, apesar de essencial para a liberdade social, é marginalizada e estigmatizada devido à discursos elitistas e à sua natureza provocante e invendável.

Primeiramente, vale pontuar que é mister a presença da cultura e da arte na sociedade, em virtude da liberdade do povo, já que promove a exposição de fatores sociais e a integração social. Entretanto, apesar de pautar questões sociais de forma artística, inclusiva e culturalmente rica, é comum o discurso que caracteriza a arte de rua como vandalismo. Nesse sentido, de acordo com o filósofo e linguista J. L. Austin, um discurso pode descrever a realidade, sendo descritivo, ou pode criar realidades, sendo reformativo. Dessarte, a desvalorização da arte urbana no Brasil é conseguinte de um discurso reformativo culturalmente excludente, apresentado como descritivo, que denomina essa expressão artística como depreciativa, destrutiva e vândala, devido a sua origem urbana e incitante.

Nesse sentido, a padronização e a transformação de obras culturais em produtos, descaracterizando seu propósito de reflexão e fazendo o uso de peças originalmente culturais para disseminar a visão das elites, é frequente no contexto artístico do Brasil. Segundo o filósofo Theodor Adorno, como descrito no conceito de Indústria Cultural, essa massificação tem como objetivo transformar a arte e a cultura em produtos a serem vendidos, padronizando obras e priorizando o lucro, tornando-as mercadorias à serviço daqueles que dominam os meios de produção e distribuição, despindo-as de sua originalidade.    Portanto, é necessário tomar providências para a desestigmatização da arte urbana, e a sua associação a valores culturais, artísticos e sociais. Logo, é fundamental a criação de uma campanha, financiada pelo Governo Federal, que vise conscientizar as massas sobre a importância desse movimento artístico para a sociedade brasileira, através de palestras e workshops em centros e praças. Ademais, é vital a criação do “Centro Artístico Urbano Municipal”, espaço criado pelos municípios, onde sejam promovidas exposições, aulas gratuitas e a urbanização artística da cidade, a fim de aproximar a população desse movimento e pontuar seu valor cultural. A partir dessas ações, espera-se que a arte urbana seja devidamente valorizada, tanto pelo seu valor sociocultural quanto pela sua estética única.