Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 02/04/2021
Machado de Assis, em sua fase realista, despiu a sociedade brasileira e teceu críticas aos comportamentos egoístas e superficiais que caracterizam essa nação. Não longe da literatura do século XIX, percebem-se aspectos semelhantes quanto a questão da valorização da arte urbana no Brasil. Nesse contexto, torna-se evidente como causas a superioridade cultural das classes dominantes e a atuação negligente do Estado com a desvalorização de tal manifestação artística.
Sob essa perspectiva, é imperativo pontuar a supervalorização de aspectos culturais clássicos de países desenvolvidos, em detrimento da arte nacional urbana. Conforme Pierre Bourdieu, o gosto provém do processo social em que o indivíduo está envolvido, sendo influenciado, principalmente, pela educação que recebe e pela posição social que está inserido. Nessa lógica, as práticas culturais do cidadão são construídas a partir da visão do que é bom ou ruim pela a classe social mais influente. Assim, o “street art”, que possui mensagens de protestos e reivindicações, não é aceito pelo coletivo, já que a classe dominante e economicamente superior detém das formas de arte bem-conceituadas.
Outrossim, é irrefutável a ineficiência do Poder Público na resolução desse problema, visto que ele persiste no contexto atual. De acordo com John Locke, filósofo contratualista, o indivíduo, ao revogar o Estado de Natureza - período de total liberdade, sem o cumprimento de leis -, tem por objetivo receber a proteção e promoção da igualdade de direitos a todos pelo Estado, o que não ocorre no atual cenário brasileiro, configurando uma quebra no contrato social. Desse modo, a negligência das autoridades frente ao desmerecimento dos artistas de rua contradiz a teoria definida por Locke, pois não há investimentos, apoio, visibilidade e respeito com a forma de arte relatada.
Depreende-se, portanto, a necessidade de ações interventivas com o fito de contornar os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil. Para isso, o Ministério da Cultura deve investir em tais artistas, por meio de projetos urbanísticos que apresentem suas obras por todos centros urbanos, a fim de reverter o cenário de desprestígio da arte. Tal ação pode, ainda, ser divulgada pelos portais midiáticos, como canais de TV e redes sociais, para que a população possa ter conhecimento das diferentes manifestações artísticas. Simultaneamente, é preciso desconstruir o preconceito e a superioridade cultural existentes, através de debates e da democratização do acesso à arte. Feito isso, o Brasil de Machado de Assis terá transformações relevantes no campo artístico.